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Descendo pra baixo

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O braZil desceu vertiginosamente pra baixo nos últimos 6 anos. Talvez alguém pontue - e deve pontuar - que não é possível descer pra cima. Temos aqui um caso evidente de pleonasmo, redundância. Obviamente quem desce sempre o faz para baixo. Como recurso estilístico, geralmente empregado literariamente, se diz por vezes descer pra cima, ironicamente sempre, e mesmo descer pra baixo pode ser usado em um contexto menos formal, em que se queira ressaltar a queda. E esse poderia ser o uso que eu fiz para reforçar muito a queda do país desde o golpe de 2016, que deve ser muito lembrada para não ser mais repetida (digo isso pra não pensar em Renan, Jader e outros filhos no ministério do novo governo...). Mas a intenção aqui é outra.   Nos últimos tempos a grande mídia usou muito uma expressão que atualmente virou lugar comum: bolsonarista radical. Assim se referem aos imbecilizados patriotas da frente dos quartéis e essa qualificação sempre acompanha o nome de George Washington de So...

O que é que o Brasil tem?

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  Quando o oficial escrevente de Cabral disse que aquilo que os portugueses viriam a chamar de Brasil era uma terra maravilhosa, em que se plantando tudo dá, nas suas palavras, não estava dizendo nenhuma novidade, as pessoas que viviam por aqui já sabiam disso há milênios.  O Brasil é um pais de dimensões continentais, com uma das maiores costas litorâneas do mundo, praias lindas de norte a Torres, rios, cachoeiras, matas, florestas, morros, serras, sol e calor, frio e chuva, às vezes até neve, um povo em geral bem hospitaleiro e muito gente boa, com raízes em várias etnias, que vai na igreja e bate cabeça no Congá. Tudo de bom. Aqui nasceram e viveram Carolina Maria de Jesus e Machado de Assis, Jorge Amado e Érico Veríssimo. Vivem ainda (e por muuuuito tempo) Itamar Vieira Júnior e Negra Jaque, Richard Serraria e Milton Hatoum. Tem Paulo Freire, e tem Lélia Gonzales, e tem Sueli Carneiro, e tem Djamila Ribeiro, e tem Aílton Krenak, e tem Carla Akotirene, e tem o Guilherme Ter...

O general democrata e outros contos fantásticos braZileiros

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  A essa altura da evolução da sociedade qualquer pessoa capaz de realizar um número mínimo de sinapses sabe que a extrema direita é uma fábrica de bizarrices. O trumpismo, sucedido pelo comunismo de Joe Biden, não deixa persistir qualquer dúvida disso. O exército imbecilizado que tranca ruas centrais de Porto Alegre há quase um mês, muito menos. A prefeitura de Sebastião Melo, ou melonaro, de acordo com a alcunha adotada na campanha de 2020, instada pelo Ministério Público, se manifestou dizendo que os movimentos são legítimos e democráticos. O que essa gente... estranha quer é quase uma incógnita. Uma hora é a realização de nova eleição, mas só presidencial; outra vez é a intervenção militar; chegaram a pedir uma intervenção federal no Exército; recentemente o pedido foi pela intervenção de um general vindo sabe-se lá de que rincão do universo. Se este general espiritual, extraterreno, virá em socorro a essa pobre gente desesperada não se sabe, mas há um outro general, em corpo ...

"É da minha natureza"

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  "Pessach: a travessia" é o nome de um romance escrito por Carlos Heitor Cony, lançado originalmente em 1967, ano em que se estruturava de forma definitiva o horror do regime instaurado pelo Golpe de Primeiro de Abril. Um ano depois, para lembrar, os militares baixaram o Ato Institucional nº 5, o mais poderoso, cruel e sanguinário instrumento legislativo da linha dura. É um livro fundamental para entender um pouco melhor o que foi aquele tempo, e digo isso ressaltando que ele foi escrito quando os piores momentos ainda estavam por vir.  O livro conta a história de Paulo Simões, na verdade Paulo Simon, de origem judaica, um escritor que transita entre a mediocridade e algum reconhecimento literário e é o retrato típico do sujeito politicamente alienado, que tem como única preocupação a sua própria satisfação. Por eventos inusitados que são construídos e descritos com a genialidade característica de Cony, Paulo acaba se engajando na resistência pela luta armada. Embora o panor...

Janja, uma Silva. Ou: mais uma sobre o amor

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  Parece que o amor da vênus platinada não era sincero. Bastou que o presidente Lula mexesse com os interesses da tchurma e começaram as críticas . Mas o poderoso mercado e seu temperamento sensível - pero no mucho - é assunto pra outro momento. O governo Lula recém começou, então não vamos alimentar crises exógenas desde já. O que importa falar agora é de maquiagem se diluindo. E de imagem sem maquiagem.  Janja se chama Rosângela, e já se chamava assim antes de assumir o forte, poderoso e belo nome Lula da Silva. E como Rosângela, ou Janja, o que ela preferir, se fez socióloga e militou pelos direitos das mulheres, dos animais, se filiou ao Partido dos Trabalhadores, construiu uma vida e uma carreira profissional e política.  Lula, antes de amorosamente emprestar o nome para a esposa, foi casado perto de meio século com dona Marisa Letícia. Não se sabe de nenhuma relação extraconjugal do presidente, mas, se se soubesse não mudaria grande coisa. O fato é que Lula é um hom...

Ah, mas o Daniel Alves não poderia ter sido convocado...

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  Há exatos 84 anos ocorria um evento que marcaria o início do Holocausto. Na noite de um dia como hoje, em 1938, milícias nazistas atacaram violentamente sinagogas, casas, estabelecimentos comerciais, hospitais e escolas judaicas por toda a Alemanha e em alguns pontos da Áustria e da Tchecoslováquia. O alto comando do Reich atribuiu o episódio a uma reação espontânea do povo alemão, em represália ao assassinato do diplomata Ernst vom Rath, em Paris, por um jovem judeu. Joseph Goebbels, o poderoso ministro da propaganda do regime nazista, desautorizou manifestações das forças oficiais, porém disse que caso ocorresem atos populares espontâneos, não deveriam se repelidos. Dias depois, outro prócer ariano, Hermann Göring, comandante da SA disse que se 200 judeus tivessem sido mortos (foram "somente" 91, segundo os dados oficiais), teria sido melhor do que os prejuízos materiais dos ataques. Alguns anos depois, uma ordem de Reinhard Heydrich, chefe do Departamento Central de ...

O couro vai comer. E não é no terreiro...

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  Djamila Ribeiro escreveu o Pequeno Manual Antirracista, livro que é pequeno apenas no nome e no tamanho, porque é um poderoso instrumento para nos orientar nas formas de combate ao racismo estrutural. Djamila é maravilhosa e a mim orgulharia muito ser digno de amarrar os cadarços dos seus tênis, ou desatar as suas sandálias, como diria João. O livro atende aos padrões modernos de leitura que exigem imediatismo. Há algum tempo fui advertido que deveria escrever textos mais curtos, porque, segundo o crítico, eu escrevo bem, mas ninguém tem tempo de ler coisas muito grandes, textões, na linguagem da hora. Há uma contradição nessa observação, porque se os textos são bem escritos, o tamanho não deveria ser um problema, mas resolvi me adaptar aos novos tempos, afinal, se as pessoas "não têm tempo" para textos grandes de gente que realmente escreve bem, imagina para mim, que apenas aspiro chegar lá algum dia.  De qualquer maneira, Mestre Gil já disse que a gente deve andar com fé,...