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Os pré-molares do gênio

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  Futebol é bola na rede.  A copa do mundo acabou e tem muito assunto pra falar por bastante tempo. Com alguma boa vontade, dá até pra falar em futebol. Esta copa é a mais politizada da história. Mais até do que as que não aconteceram nos anos 1940. Vocês viram as sobrancelhas do Messi?  Messi é um gênio da bola. E Messi é autista. Não sei se isso é diagnóstico, mas já disseram muitas vezes. O autismo de Messi, só pode ser isso, explica algumas imprevisibilidades geniais. Diante de uma equipe extremamente organizada e consciente do que deveria fazer - futebol não é só beleza, isso dizem os que não são gênios - o gênio ter se escondido na ponta direita, se negado a dar uma corridinha mínima pra marcar algum adversário na faixa de metro e meio que ocupava - tipo Romário - e sequer ter se dignado a caminhar uns metrinhos pra cobrar as faltas como vinha fazendo - bobagem, há até quem decline de quebrar a banca e transfira o pênalti -, ou limitando-se a um passezinho pro lado,...

Futebol é pra homem, pô!! Ou: um você que escancara tudo

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  Tenho visto pouca coisa dessa copa do mundo. O que tenho visto fora do campo dispensa meus comentários, porque tá todo mundo comentando e com muito mais propriedade. Práticas nazifascistas correndo à solta, que deveriam surpreender zero pessoas. Donald Trump, o que dizer que não esteja sendo dito e muito bem dito? Pra confirmar o gesto supremacista do árbitro do VAR é só olhar. Mas é legal a gente se deter um pouquinho nisto aqui que o Nando Gross traz pra nós:  https://www.youtube.com/watch?v=aV8NyceFL2I .  Eu soube dessa conversa do Romário pela minha filha e confesso que quando ela me contou não dei muita importância e cheguei mesmo a concordar em parte com ele, porque achar que o escrete canarinho, este escrete canarinho, deveria atropelar um adversário que foi semifinalista da última copa, com jogadores que figuram entre os melhores do mundo, é uma arrogância à la Mário Jorge Lobo Zagallo. Mas depois que vi a cena, veiculada e comentada pelo Nando Gross, e ouvi o ...

Não faça nada que eu não faria (mas também não faça o que eu faço)

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E de novo respiramos ares de copa (coff... coff... coff...).    Há alguns anos escrevi esta crônica aqui:  https://oximarraomaisalucinogeno.blogspot.com/2022/06/bet-que-bicho-e-esse.html . De lá pra cá bastante coisa mudou. Pra pior.  Para além de todos os problemas que envolvem esses esquemas de apostas, quero tratar aqui especificamente da hipocrisia e da falta de coragem pra ir contra o sistema, que também se pode dizer falta de coragem de ir contra os próprios interesses.  Hoje, apenas hoje, fiquei sabendo deste evento:  https://www.arenabrasileira.com.br/ . É interessante observar no line-up do festival nomes como Caetano Veloso, Marisa Monte, Paralamas do Sucesso e outros. São artistas que têm no currículo posicionamentos e ações fortes contra os autoritarismos, contra os fascismos, contra os bolsonarismos, enfim, pessoas com atuação social importante. Mas o que tem a ver uma coisa com outra?  Antes de mais nada, é preciso reforçar que é importan...

Sempre tem um bode. Ou dois...

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  Em 29 de setembro de 2022, a candidata Comandante Nádia anuncia sua renúncia à disputa por uma vaga no Senado. No mesmo ato ela apresenta o seu apoio ao outro candidato da extrema direita, Hamilton Mourão. Ambos militares, ambos da linha dura. E foi exatamente para mascarar a linha do general que a ex-comandante trabalhou toda a sua campanha. Dizia ela ser a verdadeira direita, consolidando o discurso para uma parcela já lobotomizada do eleitorado bolsonarista. Mourão estaria, segundo a candidata, fazendo concessões a pautas vinculadas a um estrato social não radicalizado pelo extremismo neofascista, ao não se posicionar, por exemplo, contra a legalização do aborto. A estratégia era evidente: dar uma maquiada na cara feia do general para tentar torná-lo aceitável a pessoas que não votavam na esquerda mas que também não compactuavam com discursos fascistas. O mito do bolsonarista que come de garfo e faca. Faltando três dias para a eleição, a verdade da candidatura veio à tona e el...

Eu ligo o rádio e bla bla. Ou: os erros de Lula

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 "Faça do limão uma limonada."  "Transforme a crise em oportunidade." "Quando uma porta se fecha duas janelas se abrem." bla bla bla Essas frases aí de cima já foram ouvidas por todo mundo, seja em livros ou podcasts de autoajuda, seja em reunião de motivação de equipes nas empresas, seja lá onde for. Frases feitas e bobagens desse tipo estão na cartilha do pensamento empreendedor neoliberal. Mas quem sabe isso pode se aplicar ao governo "de esquerda" do Lula? Quem sabe agora Lula decide alterar um pouco as coordenadas de navegação e direcionar o carro um pouco mais para o caminho apontado pelas bases históricas da esquerda, chamando, por exemplo, grandes articuladores políticos, como José Dirceu, de volta? Antes de pensar em qualquer possibilidade de análise do fato do momento, talvez seja de alguma utilidade tentar entender a razão da indicação de mais um terrivelmente evangélico para o cargo mais importante do judiciário. Interessa a quem tran...

A Páscoa antecipada

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 Harold Bloom, célebre professor e crítico literário estadunidense, contestava a ideia de uma cultura ocidental judaico-cristã. Dizia ele que existe uma cultura judaico e uma cultura cristã, muito diferentes entre si. Concordando ou não com a tese, nesses tempos de celebração para o cristianismo, é interessante pontuar a diferença entre as páscoas. Pessach, a Páscoa judaica, é um evento histórico e marca a libertação do povo hebreu da escravização promovida pelos egípcios. Já para os cristãos, Páscoa tem um caráter eminentemente simbólico e espiritual, representando a vitória do filho de Deus sobre a morte, a ressurreição. E é isso exatamente o que importa agora.  A família bolsonaro não é judaica, sabe-se. Também não é uma família cristã, embora essa imagem seja forçada o tempo todo pela conveniência que tem em relação aos negócios. Atualmente, a situação é a seguinte: o patriarca cumpre férias levemente compulsórias; o primogênito, conhecido pela alcunha de Rachadinha, faz c...

E eu não sou uma mulher?¹

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 "Já não há mais culpado nem inocente, cada pessoa ou coisa é diferente. Já que é assim, baseado em que você pune quem não é você?" "(...) a diferença é a parte mais significativa daquilo que nos faz iguais." As duas frases aí de cima são de pessoas diferentes, ditas em tempos diferentes, em contextos diferentes, por meios diferentes, com intenções diferentes. Ou seja, a diferença é a marca. Mas elas são iguais.  A primeira frase é de Raul Seixas e ele a canta na música Novo Aeon , gravada no disco homônimo de 1975. A segunda é da linguista e professora Irandé Antunes, escrita no livro Muito além da gramática¹ (p. 109). A diferença entre as duas pessoas é bem significativa. Irandé é uma acadêmica, pesquisadora, doutorada em Lisboa, professora, com uma vasta obra escrita na área da Ciência Linguística. Raul Seixas, penso eu, dispensa qualquer apresentação.  Só que a semelhança entre as duas pessoas é ainda mais significativa. Irandé, que pra nossa sorte está viva e p...