Futebol é pra homem, pô!! Ou: um você que escancara tudo


 

Tenho visto pouca coisa dessa copa do mundo. O que tenho visto fora do campo dispensa meus comentários, porque tá todo mundo comentando e com muito mais propriedade. Práticas nazifascistas correndo à solta, que deveriam surpreender zero pessoas. Donald Trump, o que dizer que não esteja sendo dito e muito bem dito? Pra confirmar o gesto supremacista do árbitro do VAR é só olhar. Mas é legal a gente se deter um pouquinho nisto aqui que o Nando Gross traz pra nós: https://www.youtube.com/watch?v=aV8NyceFL2I

Eu soube dessa conversa do Romário pela minha filha e confesso que quando ela me contou não dei muita importância e cheguei mesmo a concordar em parte com ele, porque achar que o escrete canarinho, este escrete canarinho, deveria atropelar um adversário que foi semifinalista da última copa, com jogadores que figuram entre os melhores do mundo, é uma arrogância à la Mário Jorge Lobo Zagallo. Mas depois que vi a cena, veiculada e comentada pelo Nando Gross, e ouvi o senador dizer "Quem não conhece muito de futebol, vai ter esse pensamento que você tem..." entendi a coisa de uma forma diferente. 

O fato dele não ter a intenção deliberada e racional de naquele momento ofender a jornalista, o que parece óbvio, porque, apesar de toda a arrogância, não seria burro a ponto de atacar uma colega consagrada e com muito mais tempo de estrada na profissão do que ele, escancara o que é o machismo ESTRUTURAL. É tão comum que se naturaliza. Convido as pessoas que estiverem lendo para que imaginem ele dizendo isso na mesma circunstância pro André Rizek ou pro Maurício Saraiva. Tenho convicção que não faria. Não desse jeito. Talvez dissesse a frase assim (que mudaria bastante): "Quem não conhece muito de futebol, vai ter esse pensamento". Da forma como foi, atribuindo o pensamento à própria colega, atinge uma condição subjetiva da Fernanda Gentil, que, por ser mulher, não teria a mesma capacidade que ele. Na verdade me pareceu até que ela estava repercutindo uma opinião geral e não propriamente a dela, de que o Brasil deveria ter superado com facilidade o Marrocos. Mas mesmo que fosse a ideia dela, teria todo o direito de tê-la e certamente teria embasamento suficiente, competente analista que é, para externá-la. Mas para os olhos do arremedo de comentarista não, quem não pensar como ele só pode ter uma qualificação: não entende nada de futebol. 

Alguém vai dizer que o Romário não tem papas na língua, que já xingou Pelé, Zico, o próprio Zagallo, que já discutiu com jornalista homem e tudo mais. Sim, ele fez tudo isso e mais um pouco, inclusive botar o Raphinha numa roubada medonha contra a Argentina, mas a minha questão é bem mais objetiva: ele não teria a atitude que teve com a Fernanda Gentil se estivesse conversando com um homem. E se não discutirmos isso com seriedade, se continuarmos jogando tudo na conta do folclore do futebol ou mesmo na trajetória do Romário, que é um sujeito polêmico por excelência, nunca vamos avançar na construção de uma sociedade um pouquinho melhor, pouquinho que seja. 

De minha parte, eu gostaria de muito mais gente como a Fernanda Gentil e muito menos gente como o Romário, não só nas transmissões esportivas, mas no mundo. 

*Imagem de destaque: https://brasil.elpais.com/brasil/2019/06/09/deportes/1560095309_136176.html#?rel=listaapoyo. Acesso em 15/6/2026.

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