A Páscoa antecipada
Harold Bloom, célebre professor e crítico literário estadunidense, contestava a ideia de uma cultura ocidental judaico-cristã. Dizia ele que existe uma cultura judaico e uma cultura cristã, muito diferentes entre si. Concordando ou não com a tese, nesses tempos de celebração para o cristianismo, é interessante pontuar a diferença entre as páscoas. Pessach, a Páscoa judaica, é um evento histórico e marca a libertação do povo hebreu da escravização promovida pelos egípcios. Já para os cristãos, Páscoa tem um caráter eminentemente simbólico e espiritual, representando a vitória do filho de Deus sobre a morte, a ressurreição. E é isso exatamente o que importa agora.
A família bolsonaro não é judaica, sabe-se. Também não é uma família cristã, embora essa imagem seja forçada o tempo todo pela conveniência que tem em relação aos negócios. Atualmente, a situação é a seguinte: o patriarca cumpre férias levemente compulsórias; o primogênito, conhecido pela alcunha de Rachadinha, faz campanha presidencial e, junto com o irmão fritador de hambúrguer, empenha-se em liberar o braZil pros gringo entrar, como diria Raulzito; o do meio (isso ficou um tanto ambíguo...) está estrategicamente na geladeira pra não fazer merda, assim como o último, que se contenta, por enquanto, em tirar uma grana fácil do povo catarinense. Quanto à jovem Laura, se a própria família-franquia não considera a sua existência, não serei eu a fazê-lo.
No projeto político, o ZEROUM nada de braçada desde que o Messias abençoou a sua candidatura. Entretanto, talvez tenha cometido uma heresia bíblica nas barbas do Pai. A escritura consagrada reza que Pedro, o apóstolo número 1, foi avisado pelo Mestre, logo após este ter sido capturado, que antes do galo cantar o negaria três vezes. Ainda que contrariado e tentando não cumprir a profecia, diz o texto que isso de fato aconteceu. Pois o número 1 dos bolsonaros, crendo estar trilhando um caminho seguro até a disputa, numa canalhice típica da famiglia, passou a esconder o sobrenome, se apresentando apenas como o candidato Flávio. Essa ofensa aos brios bolsonaristas, foi a deixa para entrar novamente em campo a serpente. Michelle, também conhecida como MICHEQUE (lembram do Queiroz?), que não tem nenhuma vergonha em assumir o papel de esposa dedicada, bela, recatada e do lar, foi até conversar com o ditador do STF para levar o marido para casa. E conseguiu. Na última sexta-feira, inundada de paixão, a esposinha levou Jair pro lar e anunciou que a partir daquele momento estava temporariamente afastada das atividades políticas. Vai ficar cozinhando e cuidando da frágil saúde do mito imbrochável. Quem acredita nessa conversa certamente já conversou com o Coelhinho pra pedir os ovinhos.
Pra além de qualquer relação espiritual, o que Michelle Bolsonaro vai fazer durante pouco mais de uma semana é convencer o genocida que Flávio não é digno de usar o o nome da família, que ele próprio resolveu esconder. Assim, a melhor solução, mesmo porque é a que mais agrada o Mercado, é ungir Tarcísio de Freitas como sucessor do projeto nazi-facho-bolsonarista. E, claro, para manter o controle dos negócios, ela, Michelle, que se orgulha de ser uma Bolsonaro, mesmo que não reconhecida, sairá como candidata à vice-presidência. Ocorre que não há muito tempo pra isso, porque no próximo dia 4, sábado, termina o prazo para que candidatos/as que precisam se desligar dos cargos atuais para que possam concorrer em outubro, caso de Tarcísio, o façam. Se passar esse tempo, a líder das mulheres bolsonaristas em (anti)cristo amargará uma grande derrota. Mais uma. E o rei da rachadinha terá o campo livre. Como subverter a tradição religiosa não é nenhum problema para os canalhas, é possível que neste ano a páscoa na casa dos bolsonaros seja celebrada no Sábado de Aleluia e a candidatura Tarcísio/ Michelle seja ressuscitada.
*Imagem de destaque: edição feita pelo autor sobre imagem publicada em https://www.infomoney.com.br/politica/parana-pesquisas-bolsonaro-michelle-e-tarcisio-lideram-contra-lula-em-sp/. Acesso em 30/3/2026.

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