E eu não sou uma mulher?¹
"Já não há mais culpado nem inocente, cada pessoa ou coisa é diferente. Já que é assim, baseado em que você pune quem não é você?"
"(...) a diferença é a parte mais significativa daquilo que nos faz iguais."
As duas frases aí de cima são de pessoas diferentes, ditas em tempos diferentes, em contextos diferentes, por meios diferentes, com intenções diferentes. Ou seja, a diferença é a marca. Mas elas são iguais.
A primeira frase é de Raul Seixas e ele a canta na música Novo Aeon, gravada no disco homônimo de 1975. A segunda é da linguista e professora Irandé Antunes, escrita no livro Muito além da gramática¹ (p. 109).
A diferença entre as duas pessoas é bem significativa. Irandé é uma acadêmica, pesquisadora, doutorada em Lisboa, professora, com uma vasta obra escrita na área da Ciência Linguística. Raul Seixas, penso eu, dispensa qualquer apresentação.
Só que a semelhança entre as duas pessoas é ainda mais significativa. Irandé, que pra nossa sorte está viva e produzindo muito, tem uma carreira e uma vida destinada à educação, e junto com outras pessoas da Linguística, Marcos Bagno, Carlos Faraco, Sírio Possenti etc. tem se dedicado há décadas a mostrar aquilo que todo mundo deveria saber: a língua portuguesa é nossa, do povo, assim como qualquer língua pertence ao povo que a usa. E, sendo propriedade das pessoas, não há certo nem errado, e ninguém pode ser culpado por dizer pobrema em vez de problema e muito menos por não saber identificar numa frase isolada o que é uma oração subordinada e o que é uma oração coordenada, ou coisa parecida com isso.
Raul Seixas só quis, como ele próprio disse, curtir um roquizinho antigo que não tem perigo de assustar ninguém, mas curtindo e fazendo os seus rocks (e os seus baiões, e as suas valsas, e os seus tangos, e os seus sambas, e tudo mais que ele fez), explodiu as pontes que separam a cultura tradicional, a alta cultura, daquela arte do povo, que não se preocupa se é feio ou brega dizer o que pensa, seja simplesmente rimando amor com dor ou chamando os maiores maestros da época pra fazer arranjos de cordas sofisticadíssimos nas músicas.
Mas e de onde vem o interesse por toda essa coisarada agora? Pra começo de conversa, falar de Raulzito é sempre bom pra qualquer pessoa, e examinar uma ciência complexa podendo lançar mão da linguagem simples, direta e profundamente esclarecedora de alguém como a professora Irandé Antunes é coisa que não deveria estar restrita ao contexto universitário. Mas há um gatilho por trás disso tudo, que não vou aprofundar aqui e agora, apenas deixar no ar, tipo um novo aeon, pra se pensar a partir de uma pergunta: se pra ser mulher é preciso menstruar, depois da menopausa a pessoa vira o quê?
¹Pergunta feita por Sojourner Truth, no discurso dito na Convenção dos Direitos das Mulheres em Ohio, nos EUA, em 1851.
²ANTUNES, Irandé. Muito além da gramática: por um ensino de línguas sem pedras no caminho. São Paulo: Parábola Editorial, 2007.
*Imagem de destaque: https://blog.alicerceedu.com.br/educacao-para-todos/educacao-e-protagonismo-feminino-8-mulheres-que-mudaram-o-mundo-por-meio-do-conhecimento/. Acesso em 18 de março de 2026.

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