Contos*

 Fantásticas (i) realidades

João da Palmeira

Arquivo aberto

Ao chegar no andar indicado, estranhou o nome na placa, “Dr. Pinta Silvo - Detetive”. Quem o recomendou disse apenas que era o melhor.

- Será? Com esse nome...

Fora registrado Pinta Silvo por um erro do homem do cartório. Dislexia, talvez. Era Pinto Silva, João Pinto Silva. Chamavam-no Pintassilgo (bullying?). Chegou a pensar em adotar o apelido quando se formou investigador particular. Pinta Silvo lhe soou bem. Certo ar aristocrático, raízes lusitanas.

Era uma mulher deslumbrante. Entrou fumando. Era alérgico a qualquer fumaça, mas, diante daquela visita inesperada não conseguiu ensaiar qualquer palavra de repreensão e engoliu em seco. O cigarro não se apagou durante todo o tempo em que durou a conversa. Não foi pouco.

Sempre tivera talento para desvendar mistérios. Vendo alguém ler contos ou romances policiais, contava logo o final, mesmo que nunca houvesse lido. Não leu nenhum, mas nunca errava. Aos poucos foi sendo isolado e só era procurado por algum colega de escola que quisesse descobrir um segredo.

Não conseguia desviar os olhos da mulher. Sua beleza extravagante, a brasa sempre acesa. Era um desses casos de traição. Ou desconfiança.

Quando ajudou a resolver um caso estranho ocorrido no colégio, tentaram lhe fazer uma homenagem, mas não apareceu no dia. Era um jovem estranho. Os colegas sabiam que se o convidassem para jogar bola ouviriam somente a máxima: "Futebol é o …", (filosofia?). Foi sendo isolado aos poucos.

Combinaram uma segunda conversa, com documentos e mais detalhes. Quando ela saiu, abriu um maço de cigarros que já estava guardado na gaveta quando alugou a sala (hoje é sua). Procurou algo para acender um deles. Não achou. Ficou o resto da tarde com o cigarro no canto da boca. Apagado. O pensamento parado naquela mulher. Isso o fez lembrar que ela não lhe dissera o nome. Seria a primeira pergunta do próximo encontro: "A madame por gentileza poderia informar a este seu criado a sua graça?". Não, muito formal. "A jovem não me disse ainda seu nome." Não era tão jovem. Inventaria uma ficha de cadastro. Nunca usara uma.

Quanto mais lhe estranhavam, menos se importava. Não se sabia a origem do talento para desvendar mistérios. Não lia, pelo que se sabe, nem conhecia os grandes mestres do suspense. Não cultuava o estereótipo de gabardines e cachimbos. Apenas antecipava o que talvez depois viria a ser público. Ou não. Talento natural. Sobrenatural, diziam aqueles mais impressionáveis.

Desta vez não fumava. Estranha decepção, que o fez lembrar que economizou acertadamente ao não comprar um isqueiro. Concentrou-se para entender os detalhes do caso. As fotos eram impressionantes. As palavras foram pouco compreendidas. E o nome foi de novo pergunta esquecida. As fotos ficaram ainda mais interessantes depois da sua saída. Parecia haver algo nelas que não fechava com o pouco que absorveu da conversa. Um caso a mais de traição. Ou desconfiança. As fotos estranhamente não apontavam para nada disso, mas era o caso, claro. Talvez não.

Nunca expressava reações após a solução dos pequenos mistérios que desvendava. Nada de comemorações e jamais comentários sobre os casos. O curso, feito por correspondência, foi somente para cumprir uma formalidade, obter o diploma. Nunca foi usado. Não parou na parede. Mas estava lá, em algum lugar, com o seu nome, João Pinta Silvo. E a qualificação: Investigador. Quando passou a cobrar pelos serviços, não tinha critérios definidos. Casos difíceis poderiam valer menos do que pequenos quebra-cabeças solucionados sem sair da cadeira. Pagava o aluguel. Hoje era dono.

- Qual o seu nome?

Assim, seco e direto, foi mais fácil.

- Ingrid Perrier.

Perguntou o endereço. Não conhecia o lugar.

- Telefone?

O escritório guardava uma sobriedade démodé, algo decadente. Um tanto escuro e móveis pesados. Já estavam lá quando chegou. Não mexeu em nada. Uma grande escrivaninha pouco ocupada. Cadeiras de encosto alto. Um sofá, um filtro de barro. Nada de livros. Cortinas de tecido grosso, que permaneciam quase sempre meio fechadas. Numa pequena mesa de apoio, uma foto.

Aguardava um pouco ansioso pelas novidades que ela lhe traria. Certamente as traria. Sempre as trazia. Já não eram poucos os encontros, mais do que suficientes para um caso aparentemente simples de traição ou desconfiança. E não era pelo interesse em manter contato com ela – e tinha, claro - que as coisas não avançavam como seria natural. Não conseguia fazer os enlaces e juntar as peças daquele mosaico. As fotos aumentavam em número e estranheza. Não fechavam com as linhas investigativas que propunha. Pela quarta ou quinta vez entrou sem fumar. Veio, desta vez, com um caderno grosso, de folhas escritas à mão, além das novas fotos. Anotações variadas e até o que parecia ser alguma literatura amadora. Letra parelha, a mesma caneta sempre. Não parecia ter muita lógica. Divagações sobre termos de sentido amplo ou complexo: vacuidade, impermanência, desapego. Não conseguia estabelecer conexões com as fotos.

- Querido, imagino que seja necessário alguma cautela, mas o que há de avanço na nossa investigação?

(“Querido?”)

(“Cautela?”)

(“Avanço?”)

(“Investigação?)

- Sra...

- Diga apenas Ingrid, querido.

(“Querido?”)

- Ingrid, por que você fumava na primeira visita? Nunca mais a vi com cigarros.

- Ah...

Chegou com novas fotos. Ainda mais intrigantes. Juntas não formavam uma sequência lógica. Vistas individualmente, uma lembrava a outra e parecia até pedir pela próxima.

- Trabalha?

- Eu?

- Sim.

- Claro!

Desta vez chegou pouco antes do cair da tarde. Pela primeira vez deixava a se observar pequenos fragmentos de uma tatuagem por baixo do vestido. Nada que ele pudesse entender daquele ângulo. Tentou. Uma corredeira que caía em uma cachoeira? Uma espécie de fonte? Não perguntou. Lembrou de ter lido em alguma passagem anotada daquele caderno que os símbolos sagrados não devem ser banalizados, o que incluía a advertência de que não fossem desenhados pelo corpo. Deu pouca importância à tatuagem.

- Ah, querido, estou tão cansada... Sei da dificuldade, mas queria tanto resolver isso logo de uma vez. Preciso seguir em frente. Preciso tocar minha vida.

Mal terminou de dizer a última palavra, quase sussurrada, e o seu olhar vagou pela sala.

(Querido.) Havia alguma estranha intimidade. Mesmo não querendo, pensou por algum tempo naquela tatuagem. Talvez trouxesse alguma informação relevante. Talvez.

Os dias somaram semanas e essas deram lugar a meses que se transformaram em anos. Andava a esmo, como fazia já há algum tempo. Naquele momento específico algo o despertou e trouxe seus pensamentos de volta à terra firme. Teve a sensação de já ter passado por aquele lugar. Em outros momentos já sentira isso. Desta vez não era uma impressão dessas que surgem de maneira convencional. Era como se tivesse passado por ali exatamente naquelas condições, com toda aquela configuração da cena.

À noite, despertou e foi olhar as fotos. Uma delas lhe provocou um arrepio. Descrevia exatamente a cena que tinha lhe chamado a atenção no passeio da tarde. Em todos os detalhes. O pequeno cão na mesma posição. A inclinação da árvore, os galhos movimentados pelo vento. Pensou nisso durante horas, sem tirar os olhos da foto. Chegou a entrar numa espécie de estado de transe. Voltou a si sem saber direito se havia dormido.

Fez e refez o trajeto naquela tarde e em todas as outras durante semanas, meses. Não teve mais aquela sensação. Conhecia bem aquele lugar, não sabia o nome da rua. Não viu mais o cachorro. Todos os dias olhava a foto.

O velho escritório lhe servia agora também de casa. Não tinha mais casos, mas não era perdulário, as economias ainda lhe garantiriam a subsistência por um bom tempo. Um vício barato, um cigarro durava semanas ou até meses, sempre apagado no canto da boca.

Numa das tardes que passou no local, viu tudo de novo, até o pequeno cachorro. A mesma sensação. Correu à foto e um arrepio de novo lhe tomou o corpo. Bateu os olhos rapidamente na folhinha, puxou o relógio do bolso e uma espécie de equação matemática o fez paralisar.

No outro dia foi ao local, apenas para confirmar. E foi como pensava. Nada do cão, nada que pudesse lembrar a foto tão precisamente.

Evitava o calendário, o relógio, o que lhe mostrasse quanto ainda faltava. Não lhe restaram memórias do que fez durante o tempo que precisou esperar.

Todos os detalhes devidamente checados. Aproximava-se a hora. No instante exato, partiu. Não precisava contar os passos, tudo já estava mentalmente acertado. Ao longo do caminho, foi se livrando de todos os pensamentos, nada mais parecia acontecer à sua volta, caminhava, apenas caminhava.

Estavam lá o pequeno cão, a árvore cujas folhas balançavam ao vento que corria à mesma velocidade, a janela da casa com o vidro quebrado, o muro meio derrubado, tudo, enfim, como esperava.

Exatos 7 anos e um dia depois do último encontro com Ingrid Perrier, João Pinta Silvo acordou, sem saber muito bem se aquilo tudo fora um sonho ou se agora é que estava a sonhar.

A Deus, adeus

Guiado por Deus”. A frase pintada no vidro do caminhão foi traduzida por ela simplesmente por “uma nau à deriva”.

Deus no comando”. Claro que se tratava de um exército acéfalo. O comandante era alguém cuja existência era improvável.

Se Deus é meu pastor, nada me faltará”. O pastor cuida das suas ovelhas e não permite que nada lhes aconteça. Até o momento em que elas são encaminhadas ao patíbulo.

Essas reflexões tinha desde menina e provocavam grande desconforto na família, que se reunia às terças à noite, com a vizinhança, para rezar o terço. Como uma criança criada no seio de uma família temente a Deus, tinha esse tipo de pensamento? Não entendiam.

Cresceu questionadora, sempre dizendo as coisas que pensava. Apenas um tio era quem defendia que ela se posicionasse livremente desta forma perante os membros da comunidade. Mas esse tio era um tipo irrelevante, cometia certas loucuras, acendia palitos de perfume duvidoso, fixava o olhar por horas a fio em algo que nem se sabia o que era, andava pela rua a salvar formigas e baratas, entoava estranhos cânticos enquanto manipulava um colar de madeira, que lembrava vagamente o rosário que rezavam com devoção. Um sujeito inútil, enfim, era a definição mais precisa que tinham daquele homem. Engraçado é que de vez em quando participava das rodas de oração e parecia muito compenetrado. Não rezava em voz alta, é verdade, mas não parecia desdenhar daquilo que ouvia. Eventualmente conversava com algum dos estudiosos que transmitiam e traduziam as mensagens dos textos bíblicos e mostrava conhecimentos nos assuntos da religião. Mas se perguntassem que fé professava, respondia apenas: “fé no universo, fé no humano, fé na natureza”. Sabe-se lá, “cada louco com sua mania”, é o que pensavam.

Esse tio, a única pessoa que o levava a sério (além da sobrinha) era um homem, também muito estranho, de quem pouco ou nada se sabia, porque não morava nos arredores, mesmo que sempre estivesse andando por ali. As feições de oriental não lhe revelavam a idade, que nunca disse a ninguém. Quando perguntado, limitava-se a dizer que achava que tinha nascido tantas vezes que acabara por esquecer quantos anos contava. E conversava com os animais que lhe cruzassem o caminho, numa reverência tal que parecia que qualquer daqueles bichos, por mais insignificante, poderia ser sua mãe, seu pai ou algum amigo muito próximo. Anos mais tarde, descobriu-se que ministrava alguma espécie de curso à menina. E também ao tio, que desaparecera certo dia, sem que nunca mais alguém soubesse-lhe o paradeiro. Dela, viram uma foto em que aparecia ao lado de um homem que em muito se assemelhava àquele antigo “professor”, mas que não poderia ser o próprio, porque, embora não se soubesse dele a idade, passados tantos anos, não poderia ainda estar vivo. “Não naquela vida, ao menos...”, pensou o rapazinho ao ouvir os mais antigos conversando sobre o assunto.

Porque os tempos estão mudando

Uma antiga canção de Bob Dylan* pergunta por quantas estradas um homem precisa andar antes que ele possa ser chamado de homem.

A partir desta premissa, a professora Agnes propôs um trabalho aos seus alunos, que consistia em que cada um fizesse uma redação com ideias sobre esse pensamento do compositor. André, que sempre tivera uma postura instigante aos olhos da professora, perguntou se poderia escrever o seu texto substituindo nele o termo homem por mulher. No momento em que falou isso, Agnes ficou um tanto surpresa, mas respondeu que não havia problema algum, que ele fizesse da maneira como achava melhor.

À noite, conversando com o marido, comentou o episódio, perguntando o que ele achava da ideia do aluno. João Paulo apenas disse que talvez a resposta que ela precisasse estivesse nela mesma.

Agnes era uma professora jovem e muito querida por todos na comunidade. Tinha feito o curso normal e desde adolescente sabia que a sua vocação era o magistério. Não tinha, porém, aspirações acadêmicas, tanto que resolveu que não faria faculdade. Nem pensava em deixar o pequeno vilarejo. Bastava-lhe a habilitação para dar as suas aulas no antigo colégio, único nas proximidades. Era, como se pode ver, uma mulher muito simples, cuja ambição poderia se resumir a ensinar o que sabia.

João Paulo não era muito mais velho do que ela e, embora tivesse pouca educação formal, era dotado de uma inteligência superior. Lia tudo o que lhe caísse nas mãos, discutia em pé de igualdade com os mais doutos catedráticos, e tinha uma habilidade singular para trabalhar a madeira, que fez com que os amigos o convencessem a fazer disso sua profissão, passando a ser conhecido como João Carpinteiro. A exemplo da esposa, não era ambicioso e bastava-lhe ter o suficiente para dar uma vida digna à família e, podendo, ajudar os amigos que porventura dele precisassem.

Ainda não tinham filhos, mas queriam, embora os alunos (e também as alunas...) de Agnes mais parecessem seus filhos. E João Paulo, ao contrário de se importar, gostava e estimulava essa relação da esposa com as crianças. Nos fins de semana organizavam passeios e piqueniques nos morros da região. Vivam uma vida feliz.

Naquela noite, Agnes demorou um pouco mais do que o habitual para dormir, ficou pensando na resposta que o marido lhe dera sobre a pergunta a respeito do aluno que queria escrever sobre mulheres em vez de homens. O que teria no seu jeito de ser que pudesse ter despertado aquela reação? Esta era a pergunta que não lhe queria sair da mente.

Quando retomou o tema do trabalho proposto na aula anterior, a professora resolveu aprofundar com André a ideia de substituir homem por mulher no seu texto. O menino perguntou se ela e os demais colegas teriam tempo para ouvir o que ele tinha a explicar. Agnes ficou surpresa, novamente, mas depois de consultar a turma, disse que ele tinha o resto da aula para falar sobre aquilo.

- Professora, a senhora acredita em Deus?

- Que pergunta difícil... Acho que acredito em algo que seja mais ou menos como Deus, mas que também pode ter outros

nomes, Alah, Krishna, Javeh, Tupã, Oxalá, enfim.

- A senhora diz o Deus ou a Deus?

Naquele momento a professora imaginou estar começando a entender a lógica do pensamento do aluno.

- Deus é uma palavra masculina, André, então a gente diz o Deus.

- Sim, uma palavra masculina, como Krishna, Tupã e todos os outros nomes que a senhora possa pensar pra dizer que são de Deus, né?

- Exatamente!

- Pois eu quero fazer algo diferente, professora. Quero que o homem seja homem e mulher, que Deus seja Deus ou deusa e que Deusa seja escrito com letra maiúscula, quero mostrar que nós todos somos filhos e filhas, pais e mães, irmãos e irmãs, tudo ao mesmo tempo.

- Estou achando muito interessante o seu ponto de vista, André, mas você não acha que essas ideias são muito avançadas para um menino da sua idade?

- E a senhora sabe mesmo a minha idade, professora?

Essa última pergunta deixou a professora totalmente desconcertada.

- Como assim, André? - perguntou, Agnes, atônita e antevendo que a réplica do aluno poderia ser ainda mais difícil.

- Estou brincando, professora, me desculpa, não quis causar problemas.

Antes de falar a respeito do assunto com o marido, como era seu costume, Agnes resolveu tentar entender um pouco melhor tudo o que aconteceu. Não conseguiu avançar muito. No dia seguinte, pediu a André que após o final da aula ficasse um pouquinho mais, pois queria conversar com ele.

A aula naquela manhã transcorreu em normalidade e após a sirene de encerramento, os alunos deixaram a sala e André ficou sentado, esperando a professora encerrar as atividades.

- André, você sabe que eu sempre admirei muito a sua inteligência e a sua capacidade de me surpreender com as palavras, mas ontem isso foi além do que eu posso entender. Tudo o que você disse me perturbou um pouco e eu gostaria que você falasse mais sobre isso, para que eu possa entender melhor o que passa nessa sua cabecinha fértil, desde a ideia de usar mulher em vez de homem no trabalho sobre a canção, até essa conversa toda sobre Deus, deusa etc.

- Claro, professora, antes só queria perguntar se a senhora falou agora deusa ou Deusa?

- Como assim?

- A senhora usou letra maiúscula para Deus e Deusa ou minúscula para Ela?

- Ah...

Antes que Agnes pudesse dizer qualquer coisa, o menino disse que ela não precisava responder, que se tratava de mais uma brincadeira.

- É que, professora, a gente sabe que homens namoram e se casam com mulheres há muito tempo, mas hoje tem meninos que gostam de meninos e meninas que gostam de meninas. E a gente sempre ouviu falar que Deus criou o homem e depois criou a mulher para que vivessem juntos. E que a partir daí, homem vale pra homem mesmo e também para mulher, mas homens que gostam de homens sofrem, e mulheres que gostam de mulheres talvez ainda mais. É meio confuso. Tem até uma regra que diz que quando a gente quer dizer homem como homem mesmo, masculino, deve escrever com a letra h minúscula e quando quer usar a palavra homem pra dizer todo mundo, homens e mulheres, usa H maiúsculo. Isso o meu pai me falou uma vez, mas eu nunca ouvi a senhora dizer na aula, então nem sei se é verdade mesmo. A senhora nunca disse que homem vale pra homem e mulher.

Como o aluno tivesse falado tudo aquilo de um fôlego só, Agnes exclamou:

- Ufa, André, quanta informação num pensamento só. Me dê um minutinho para que eu possa processar tudo o que você disse. Meus “arquivos” não comportam tanta coisa na cabeça.

Depois de um breve silêncio, tempo em que aproveitou para dar uma boa olhada no aluno, que, apesar de mostrar alguma precocidade em certos assuntos, era uma criança como as outras, Agnes retomou a conversa.

- É, realmente, não gosto muito dessa definição genérica de homem como ser humano, mas as suas origens são muito antigas e criaram uma tradição, uma cultura. Só que devem ser, sim, objeto de questionamento permanente.

- Nem eu gosto. E eu vejo a senhora como uma professora mulher, mas também como uma PROFESSO-RA – o menino disse a palavra professora destacando-a do resto da frase e frisando na entonação a última sílaba.

- Sim, eu sou mulher, logo sou professorA.

- Claro, mas não é disso que eu estou falando, estou dizendo que se a senhora fosse UM professor, e fosse assim como a senhora é, não faria a menor diferença, porque eu ia gostar da senhora mesmo assim e sei que iria aprender tudo do mesmo jeito, e sei também que se eu gostar de meninos, a senhora vai me ensinar o que precisa ser ensinado do mesmo jeito que se eu gostar de meninas ou se não gostar de nada.

- Disso não tenho dúvidas! – pensou a professora, fazendo algum esforço para compartimentar as ideias que o menino trazia, pois ele as expunha como se falasse em fluxo de consciência, misturando assuntos aparentemente diversos, mas que, no fim das contas, tratavam do mesmo tema. Agnes acho bastante interessante, inclusive essa forma inusitada que o aluno encontrou para transmitir seus pensamentos.

- Pois é, então se a música diz que o homem tem que andar por muitas estradas pra poder dizer que é homem, com a mulher também acontece a mesma coisa, né?

- Claro, mas aí é o caso em que se aplica aquela regra da letra maiúscula que o seu pai falou pra você.

- Mas e eu não posso aplicar a regra da letra maiúscula usando a palavra Mulher? Dizer que a Mulher deve andar por muitos lugares pra poder ser chamada de Mulher? E quando disser Mulher, usar letra maiúscula, pra dizer que vale pra homens e mulheres?

- Deveria poder, mas não é o que se faz.

- Mas a senhora mesmo disse que muitas coisas que a gente faz hoje, antigamente não poderia fazer.

- É verdade! - neste momento Agnes começou a entender o que o marido quis dizer, quando falou que ela deveria procurar em si própria as respostas para os questionamentos do aluno.

- Então? É isso, a gente tem que fazer do nosso jeito, mudar as coisas que precisam ser mudadas.

- Ok, entendi, e você tem toda a razão, André, as coisas são como são porque houve uma convenção que disse que assim seriam e essas convenções vão sendo alteradas com o passar do tempo. Algumas delas, pelo menos. Outras se consolidam na cabeça das pessoas e não mudam nunca mais. Por exemplo, dois mais dois é quatro e não se sabe muito bem desde quando, nem porque, mas ninguém contesta. Por outro lado, hoje a mulher pode votar nas eleições, coisa que não era nem pensada alguns atrás. Mas... e Deus? Desde sempre Deus é Deus e a sua expressão vale para tudo. A palavra deusa sempre carrega uma conotação mais mística, menos religiosa, tomando por base a religião cristã e mais especificamente a católica. Não há deusas nas Sagradas Escrituras, não, pelo menos, de um jeito que possa se comparar à figura de Deus, o Criador. O que você acha disso, meu querido?

Era uma pergunta difícil, sabia, mas tinha resolvido provocar o aluno para ver até onde ele poderia chegar.

Já tendo preparado o espírito para uma longa explanação, cheia de ideias e elucubrações tão típicas daquele pequeno questionador, a jovem mestra/aprendiz ouviu apenas:

- Ora, professora, o seu Deus pode ser a minha Deusa...

A partir daquele dia, as aulas de Agnes passaram a ser diferentes, embora ela não tenha mudado absolutamente nada na maneira como costumava conduzi-las.

*Blowin' in the wind

A festa

Naquela noite, o toque do candongueiro soou diferente. Sabia que alguma coisa estava por acontecer. A gira correu normal, mas ele estava estranho, mesmo que ninguém tenha notado. Ninguém além de uma pessoa.

O moço, que havia chegado há poucas semanas na Casa, já sabia que José era diferente. O jeito que dançava não era exatamente do mesmo tipo que todos ali. Não fugia da tradição, mas tinha algo de especial, algo de ainda mais mágico.

No final dos trabalhos, enquanto arrumavam as coisas pra deixar tudo em ordem para a festa do sábado, o moço se aproximou e perguntou se José queria tomar umas cervejas depois que saíssem dali. Chamar o Zé pra tomar cerveja depois do trabalho, fosse qualquer tipo de trabalho, era convite que nunca encontrava uma resposta negativa. Não apressou a arrumação, não fez nada diferente, e, ao terminar, saiu dali direto para o bar que a turma do Terreiro frequentava. Em companhia do moço.

Em véspera de festa, dificilmente se via alguém da Casa pelo bar, mas não chegava a ser surpresa o Zé por lá. Os outros eram mais fracos e acabavam se excedendo, então, para evitar qualquer problema, na noite que antecedia a festa, iam todos para as suas casas. Mas o Zé “guentava o tranco”, como se dizia. Chegaram os dois e quando sentaram na mesa o copinho com a cachaça já estava esperando. Pediram outro. Um brinde aos santos em um gole só. Depois a cerveja. Nenhum dos dois tinha preferência por marca, então que viesse a mais gelada. E vieram várias.

Assim como Zé, o moço não perdia nunca para bebida, isso ficou bem claro. Empilharam garrafas no engradado que o português já deixava a postos para acomodar as vazias sempre que era o Zé na mesa. A conversa foi ficando cada vez melhor e o sol já ia alto – o português nunca expulsava um cliente - quando lembraram que dali a poucas horas tinham a festa. Despediram-se e uma sensação estranha ficou no ar.

Vestidos com as roupas da festa, cada um ficava ainda mais bonito. Quem chegasse de fora - a festa era aberta - não tinha com não admirar tudo o que acontecia ali. Era o dia mais importante do ano, mais que o natal ou que o carnaval. A comunidade toda se reunia no Terreiro e Vovó Maria era reverenciada como uma verdadeira entidade divina. Rituais diversos se sucediam e em cada um os participantes se esmeravam, dando o melhor de si para tornar a festa ainda mais inesquecível que a anterior. E sempre era.

A hora em que o sol se punha era especial. Até então, depois de tantas e tantas que se perderam na conta, nunca houvera uma festa em que um sol esplêndido não se fizesse presente para depois se esconder atrás do morro. E quando ele partia, era o sinal que a alegria estava apenas no início, pois a parte dita sagrada estava encerrada e todos estavam livres para dançar, beber, celebrar as bençãos dos Orixás. Neste momento, os olhares de Zé e do moço se encontraram e ambos refletiam o brilho do sol.

Já na madrugada, quase manhã, deitado na rede, como fazia sempre depois da festa, Zé pensava naquele instante em que olhou para o moço e viu que ele girava num movimento diferente, com uma habilidade impressionante para se equilibrar nos rápidos movimentos que o seu corpo descrevia no ar. Ali, pela primeira vez resolveu tentar entender o que o estava acontecendo, que tipo de sensação era aquela, que na noite anterior não soubera explicar, mas que agora parecia de forma muito clara estar ligada àquele novo integrante do grupo.

José, apesar de não ter muita idade, era dos membros mais respeitados da comunidade, porque nasceu e se criou naquela Casa. Ninguém estranhava o fato de nunca ter levado namoradas às festas, porque sempre deixou claro que da sua vida privada cuidava ele. Assim, mesmo que alguma coisa pudesse ter despertado a curiosidade na maneira como agora ele o moço andavam sempre juntos, quem ousaria perguntar ou fazer qualquer comentário? E ninguém perguntou ou comentou. Nem quando pela primeira vez em muito tempo José não apareceu para abrir os trabalhos. Vovó Maria fez apenas um sinal. A partir daquela noite o moço assumiu o comando dos rituais.

Black Label

Marcos – Marquinho ou Quinho - era um cara legal, apesar de algumas esquisitices. Gostava de pescar, mas pescava sem anzol. É que a pescaria pra ele era um ritual, do qual não fazia parte o sofrimento do peixe. Colocava as linhas na água sem nada que pudesse maltratar os pobres bichos.

Pois foi numa dessas pescarias diferentes, que quase sempre fazia na mais plena solidão, somente acompanhado do toca-fitas que invariavelmente tocava as músicas do Tom Jobim, que aconteceu aquele fato estranho, que mudou a sua vida.

Estava lá, sentado na pedra, com as duas varas de pescas armadas pra não pescar peixe algum, quando uma delas começou a puxar. Até já havia acontecido antes, quando alguma alga se enroscava no pesinho na linha, mas desta vez a puxada era mais forte. Teve alguma dificuldade pra tirar a linha da água e quando veio tinha uma garrafa que de algum jeito se enrolou no chumbinho que tinha na ponta. Era uma garrafa de uísque e tinha bebida dentro, pela metade. Ate aí tudo bem, mas olhando pelo outro lado, viu que tinha alguma coisa escrita à caneta na parte de trás do rótulo. Descolou cuidadosamente o rótulo, no que levou bastante tempo, pois não queria danificar o papel, e conseguiu ler a seguinte mensagem: “Bebi metade desta garrafa em companhia do meu amigo...” Não dava pra entender como aquilo tinha sido escrito, porque o rótulo não parecia ter sido retirado e colado novamente.

Levou a garrafa pra casa, junto com o rótulo, para mostrar aos amigos e juntos tentarem desvendar aquele mistério. Como já era tarde, colocou a garrafa na mesinha que tinha perto da cama, o rótulo dentro de um livro e foi dormir.

Na manhã seguinte, tudo estava no lugar em que havia deixado, quase tudo, porque o rótulo estava colado à garrafa novamente. Achou bem estranho, mas pensou que como estava muito cansado na noite anterior, talvez ele mesmo tivesse recolocado o rótulo e agora não lembrava. Só que ao examinar a garrafa, viu que havia mais coisa escrita. A mensagem agora era: “Bebi metade desta garrafa em companhia do meu amigo Quinho...”. A letra era a mesma e a tinta da caneta também. Como era muito cético nessas coisas, procurou todas as formas possíveis de explicar o caso racionalmente. Deixava as janelas abertas no verão, então algum amigo poderia ter entrado lá enquanto dormia e feito aquilo. Mais ainda, certamente tudo era obra de algum amigo, desde a própria garrafa presa na linha, porque não era raro que dormisse na pedra durante as suas “pescarias”. Numa dessas, algum tirador de sarro, dos que sempre faziam piada do seu hábito de pescar sem anzol, teria bolado todo aquele plano.

Decidiu entrar na brincadeira. Não contou a ninguém do acontecimento, apenas pegou a garrafa e deixou em um lugar bem visível, na sala, para que as pessoas que fossem lá vissem e fizessem algum comentário. Tinha certeza que em algum momento alguém se trairia ou não aguentaria mais a ansiedade e acabaria confessando tudo.

Pedro Peixeira foi o primeiro a aparecer, sentou, conversou, comeu, bebeu e foi embora sem dizer uma palavra sobre a garrafa. Estava na cara que ele era um dos participantes do esquema. Mais tarde, Anísio e Robalinho, esses pescadores de verdade, profissionais, também passaram por lá. Nenhum dos dois disse nada sobre a garrafa. “Fizeram a coisa toda em grupo.” - pensou Quinho. E já começou a arquitetar o plano pra desmascarar a turma.

Combinou com eles e mais alguns outros amigos uma rodada de canastra para a sexta à noite. Já fazia algum tempo que não se reuniam pra jogar e seria uma grande oportunidade de analisar as reações de cada um diante da garrafa. E assim se fez.

Tirou a garrafa da mesa que seria usada para o jogo, mas a deixou bem à vista na mesinha do lado, que serviria de apoio para as bebidas e os copos que animavam a turma no carteado. Jogaram a noite toda, derrubaram várias garrafas de cachaça, que era o que se bebia nessa e em todas as ocasiões, mas não houve sequer um comentário sobre a garrafa de uísque. Não ganhou nenhuma partida, porque passou o tempo todo analisando as reações dos amigos, sem encontrar nada que pudesse dar alguma pista, o menor indício sequer. Todos agiam com naturalidade, inclusive nas piadas feitas sobre o azar do amigo no jogo, que foi tanto naquela noite, que a uma certa altura João Curió pediu pra trocar de dupla.

Nos dias seguintes, manteve a rotina normal, inclusive com as “pescarias”, mas não conseguia mais pensar em outra coisa que não desvendar o mistério da garrafa. Organizou rodadas de canastra semanalmente, convidou todos os amigos, sozinhos ou em grupo, pra almoçar, jantar, tomar café, promoveu reuniões da igreja em casa, enfim, fez de tudo para tentar resolver aquele enigma, que já havia se tornado uma obsessão. Em todas essas ocasiões, a garrafa permaneceu em lugar de destaque, mas nunca houve o menor comentário, nem mesmo um olhar sobre ela. Parecia até que era invisível.

Todas essas tentativas de descobrir o que estava por trás daquela estranha garrafa, fez sem mudar de forma significativa o seu comportamento, porque não queria que nenhuma atitude sua influenciasse mesmo que minimamente a reação do responsável pela brincadeira. Por isso mesmo foi uma grande surpresa quando os amigos encontraram o corpo junto às pedras, e mais ainda quando saiu o resultado da necropsia, que identificou a presença de álcool no sangue. Marquinho era abstêmio.

Purple Haze

Recém o dia começava a raiar quando deixaram o fuca do Gérson no pé do morro, perto daquela entrada que só eles e uns poucos mais sabiam onde era. Apesar de não irem lá há anos, foi fácil achar a trilha, tantas vezes passaram por ela desde que foi proibido acampar no Parque. Já não eram mais os guris daquela época, mas ainda assim conseguiram subir numa boa. Não tiveram que esperar muito pela chegada de Luizinho, que vinha de ônibus, pois estava em Santa.

O combinado era que fossem passar o dia lá, naquele pico mágico, que tantas e tantas vezes subiram desde a adolescência. Só os cinco, o dia todo, uma reunião sem pauta definida. Apesar do sucesso da banda – ou talvez mesmo por causa disso –, as coisas não estavam legais entre eles e nada melhor do que aquele lugar para “botar os pingos nos is”.

Não demorou muito para que Leandrinho, o falador da turma, abrisse os trabalhos, lembrando da vez em que levaram aquelas gurias que encontraram na estrada lá pra cima. “Baita festa! Até casamento rolou...” Cláudio lembrou que foi nesta mesma vez que fizeram a música que até hoje identificava a banda: Mal(d)acara. E falou nisso porque o título, que todos consideram uma sacada genial, pelo trocadilho com um dos cânions, foi ideia dele. Beto falou com orgulho daquele artigo sobre a banda em que o cara fazia referência a John Cage por causa dessa música: “São exatos 7 minutos e 33 segundos de quebradeira total”, foi que o que ele escreveu. Era isso mesmo, a música tinha 7 minutos e 33 segundos e todas as vezes em que eles tocavam ao vivo, e isso era sempre que faziam shows, mesmo que chovesse canivete, nesse tempo exato a música acabava do jeito que estivesse. Nunca erraram. Nunca! “E gravamos ao vivo, num take só, muito foda!”, disse Luizinho. “Teve aquela pinta que disse que ia cronometrar o tempo da música toda vez que a gente tocasse, lembram? Baita otário! Como se isso fosse deixar a música melhor ou pior. Cada uma...” Ficaram comentando música por música, parecia algo combinado, mas não foi, e até o fim da manhã falaram sobre todas as músicas do primeiro disco. Na tarde, os temas se diversificaram mais, mas sempre de algum jeito acabavam voltando a alguma música. Foi Gérson que se deu conta disso e também foi ele que percebeu que não enxergou a fumaça do baseado que acabara de acender. Já tinham fumado uns oito ou nove. “Porra, galera, não estou vendo vocês!” Começaram a rir. Tinham esquecido que nesta época do ano, quanto mais aberto estivesse o dia, maior a chance de baixar uma puta cerração no cair da noite. Quando pararam de rir, Leandrinho lembrou que eles tinham decidido só passar o dia. Logo que disse isso, percebeu que a cerração estava tão fechada que eles não sabiam nem a que distância estavam da beira do cânion. “Tá perigoso até de sair do lugar”, disse Gérson, que sempre foi o mais ponderado e mais cabeça da galera. Estava meio perigoso mesmo, porque qualquer passo a mais poderia terminar num mergulho no penhasco. Beto, que andava sempre com medo de alguma coisa, pediu que todos ficassem ali e se encarregou de fazer uma espécie de chamada de tempos em tempos, pedindo que todos falassem alguma coisa. Exagerado, como sempre, pediu “PE-LO-A-MOR-DE-DEUS” que ninguém fizesse piadinha de mau gosto e que quando alguém estivesse a fim de dormir, avisasse os outros. Na real, estavam muito chapados pra dormir e a noite rolou só em conversas. Ness altura já tinham decidio passar a noite por lá mesmo. Apesar de não terem subido com comida nem água pra muito tempo, levaram tudo na boa, fazia tempo que não rolava alguma história digna de registro. Como não tinham levado instrumento nenhum, criaram algumas melodias em assobios e fizeram as harmonias com as vozes. “Um lance meio Motown”, disse Luizinho, o “negão” da banda. Era tão apaixonado pela cultura negra que sempre se referia a si próprio dizendo “nós, Negros”. “Tu não é negro, porra nenhuma!”, sempre diziam quando queriam encher o saco dele. E assim, falando e musicando, foi-se a noite.

Os raios de sol que começaram a abrir as nuvens já não eram os primeiros da manhã. Descobriram isso porque quando a neblina se dissipou por completo, o sol já ia alto. De outro jeito não saberiam, porque uma das combinações que tinham feito era que ninguém levaria relógio. “Já dá pra descer”, falou Beto. “Vamos nessa, então!”

Já tinham combinado também que na volta iam se apertar e todo mundo ia no fuca, como já tinham feito tantas e tantas vezes antes. O que não contavam é que cada um tivesse ganho alguns vários quilinhos a mais com o tempo. Mas se ajeitaram mesmo assim e começaram a descer. Ali, na parte baixa do morro, ainda tinha cerração, mas Gérson podia errar o caminho do quarto pro banheiro da sua casa, mas naquela estrada ele nunca ia se perder. Só que quando chegaram lá em baixo, viram que não era bem assim, pois não reconheceram aquela cidadezinha. Certamente tinham pegado a parte de trás do morro e saíram no lado catarinense. Mas Luizinho observou que já tinham passado pelo lado dos catarinas várias vezes, também, e que não era aquilo ali. Ficaram tranquilos, porque era só achar alguém na rua e perguntar que lugar era aquele e como fariam pra sair dali. Só não podiam imaginar que não achariam ninguém na rua. “Que raio de cidade! Ninguém anda na rua a esta hora? Será que tá todo mundo dormindo depois do almoço??”, falou Beto, entre irritado e nervoso. Quando passaram pelo posto de gasolina, Gérson resolveu parar pra abastecer, só que também o posto parecia abandonado. “Olha só que estranho, galera” - disse Gérson - “saímos ontem na madruga com o tanque cheio e o ponteirinho do combustível não mexeu um milímetro. Tem gasolina pra voltar pra casa tranquilo.” “Então vamos embora logo daqui. Esse lugar já tá me dando arrepios!”, Beto falou.

Já tinham rodado uns bons quilômetros e não viam nada que pudesse indicar uma saída da cidade, quando Cláudio, que há um bom tempo não dizia nada, falou; “Xiiii, rapeize, acho que a gente tá perdido!” “Não fala merda, Cláudio, em seguida vamos achar a estrada!”, respondeu Beto. “Ah, é meu brother? Então me explica porque é a terceira vez que a gente passa pelo mesmo posto de gasolina vazio?” Um arrepio geral passou pelos cinco quando Gérson falou que isso era muito estranho, porque tinha dirigido o tempo todo em linha reta. “Para esse carro que eu vou descer e descobrir um jeito de sair daqui!”, gritou Leandrinho. “Não quis assustar vocês, galera, mas já tentei parar o carro e não consegui, o freio não funciona, só dá pra andar pra frente.” Beto começou a chorar. “Eu pedi pra vocês não fazerem nenhum tipo de sacanagem, porra!! Vocês são foda! Tá, já me mijei todo, agora dá pra parar a palhaçada e vamos pra casa logo.” Gérson e Luizinho disseram quase ao mesmo tempo que não tinha sacanagem nenhuma, que não tinham a menor ideia do que estava acontecendo. Leandrinho sugeriu fumarem mais um baseado, quem sabe alguma coisa aconteceria. Cláudio disse pra todo mundo jogar a fumaça direto pela janela, pra ver se o cheiro de maconha acordava alguém naquela porra de cidade. Nessa altura Beto já estava implorando pra que Gérson dissesse que a erva que ele pegou era porrada mesmo e que isso era só o efeito alucinógeno da coisa. “O rádio não tá funcionando?” Perguntou Luizinho. No morro não funcionava, então nem ligaram, mas agora de repente já tava pegando alguma coisa. E uma música sempre poderia descontrair e tirar um pouco a tensão do ambiente. Embora tudo aquilo fosse muito estranho, sabiam que mais cedo ou mais tarde a coisa ia se resolver. “Porra, tu é pé-quente pra caralho, irmão!!! Jimi Hendrix!” A música que tocava no rádio era uma versão que eles nunca tinham ouvido. “Putaquiopariu, olha o que o cara fez com essa música, caralho! Envenenada afú!”. Cláudio se apaixonou de cara pela versão, até então inédita pra eles. “Quem sabe o velho Jimi nos mostra como sair desse buraco perdido?! Nós, negros, sempre damos um jeito em tudo...” Desta vez ninguém disse que Luizinho não era negro, porque de alguma maneira tinha razão. Nem reclamaram dos 8 quilômetros que tiveram que empurrar o fuca até encontrar um posto de gasolina perto da entrada de Torres.

Simplesmente amor

Muito antes de saber da existência de uma tal Igreja de John Coltrane, Ana já era sua devota. Não era muito comum ver mulheres tocando sax, ainda mais no Brasil dos anos 60, mas ela não tinha dúvidas que valeria a pena enfrentar o preconceito e as próprias dificuldades da profissão. Sim, ela seria profissional.

O disco que mudou a sua vida foi A love supreme. A porta de entrada para um mundo novo, em que tudo se misturava, arte, misticismo, religiosidade. Como é que alguém conseguiu dizer tanta coisa só com sons, sem palavras? Era uma pergunta recorrente. Na verdade, havia palavras, praticamente murmuradas: A love supreme, a love supreme, a love supreme... E justamente nelas estava a resposta. Realmente era um amor supremo, um amor transcendental, amor pela humanidade, pela natureza. Era isso que a música despertava nela.

Gostava de outros jazzistas, claro, Miles Davis era gênio, Monk, o próprio Charlie Parker; no Brasil, como depois diria Chico Buarque, outro gigante, a propósito, Tom Jobim era o maestro soberano, mas Coltrane era único. A maneira como criava suas músicas ou como transformava em suas as criações de outros compositores, não encontrava par na história da música. Uma das coisas em que Ana acreditava era que no quarto milênio, quando alguém falasse em música, lembraria de Bach, Mozart e Beethoven, de Coltrane, Hendrix e dos Beatles. Uma lista deficiente, por certo, outros nomes mereceriam estar nela, uma mulher, Ella Fitzgerald, certamente Clara Nunes, por quem ela se apaixonaria posteriormente e diria ser uma força da natureza, mas de todos, John Coltrane era o ápice.

E foi seguindo essa paixão que ela se tornou uma grande professora, reconhecida mais até como tal do que como instrumentista ou compositora, embora suas músicas fossem ouvidas mundo afora e suas raras apresentações públicas em shows e concertos fossem disputadíssimas. Ainda que amasse o saxofone, em dado momento da trajetória adotou o piano, tanto pela melhor condição que ele lhe dava para desenvolver o ensino da música, quanto pela reverência que tinha ao grande ídolo, algo que a fazia se sentir indigna de usar o mesmo instrumento que o consagrou.

Depois de ter ajudado a formar algumas gerações de grandes músicos na universidade, Ana resolveu botar em prática um antigo projeto, que se vinculava à visão espiritual que fora despertada nela a partir da primeira vez que ouviu A love supreme. Um dos conceitos que ela desenvolveu para a ideia de um amor supremo, acreditando sempre que este nome não era mero acaso na obra de Coltrane, era a missão de fazer aflorar nas crianças o amor pela música, que ela julgava ser condição inata do ser humano. E a partir desse amor, que inevitavelmente se expandiria para as outras formas de arte, as crianças que fossem tocadas de fato acabariam por criar uma consciência humana que se transformaria no amor pela humanidade, o próprio amor supremo. Eis o objetivo maior da arte e que ela decidiu perseguir.

Não pretendia se aposentar de fato da universidade até que a compulsória a obrigasse a isso, mas diminuiu bastante a carga horária, eis que já não teria mais a obrigação da dedicação exclusiva. Assim foi que surgiu, naquele ano, o Instituto Amor Supremo. Não era desprovido de um caráter espiritual, mas não tinha nada a ver com qualquer religião específica. Pelo contrário, ali se cultuariam os valores do universalismo, seria um centro ecumênico de artes, por assim dizer.

Ser uma artista e professora de renome trouxe-lhe o benefício de não encontrar nenhuma dificuldade em reunir colegas dispostos a caminhar com ela na construção deste sonho. O corpo docente do Instituto era de dar inveja a qualquer grande curso de música no Brasil e no mundo. Em todas as áreas. E ela, como não era de ficar só administrando, e muito menos era dada a funções burocráticas, contratou uma equipe de profissionais de sua extrema confiança para gerenciar a escola, deixando-a livre para fazer o que considerava sua missão espiritual: ensinar.

Os cursos que o Instituto oferecia não eram gratuitos, pois a escola não tinha nenhuma vinculação com órgãos governamentais e o modelo não aceitava o financiamento de empresas privadas. Havia, porém, muitas possibilidades de isenção de mensalidades. O sistema era bem simples: os que podiam pagar financiariam os estudos daqueles que não tivessem condições. Os alunos e alunas não seriam separados em classes de acordo com a sua condição de pagantes ou não. A isenção era, inclusive, sigilosa, sendo que todos eram orientados a não comentar a sua situação.

Ana demonstrava o mesmo interesse por todos os alunos e alunas, mesmo que identificasse já nos primeiros contatos quem tinha talento suficiente para se tornar grande na profissão. Havia ainda os que não tinham o que se chamava dom (esta palavra não era muito bem-vinda aos ouvidos de Ana, que só a usava na falta de outra melhor à compreensão do público em geral), mas que pela disciplina alcançavam ótimos resultados. E também aqueles a quem a música não passaria de um passatempo ou mesmo uma atividade auxiliar a outras áreas. A todos Ana dedicava a mesma atenção.

Essa definição, da escola e do seu sistema de trabalho, fazem entender um dos motivos do nome que ela escolheu, para além da referência óbvia ao grande disco homônimo.

O Instituto oferecia cursos e atividades para diversas finalidades. Quem quisesse se preparar para ingressar na vida acadêmica quando a idade e a formação escolar assim permitisse, poderia estudar lá por alguns anos até atingir os requisitos exigidos. Os que queriam simplesmente aprender algum instrumento também tinham lá sua oportunidade. Havia um diferencial, contudo, que destacava a escola entre aquelas da sua categoria. Lá as crianças só teriam contato com o ensino formal de música (leitura de partitura, técnicas específicas etc.) depois que já tivessem trilhado todo o caminho para desenvolver o que para a sua idealizadora era o essencial na aprendizagem: o sentimento, o feeling. Antes de aprender a lidar com naturalidade em relação às inspirações, não passariam às etapas de formação plena. Esse era um conceito que Ana tinha aprendido com um músico que para ela era um dos grandes gênios da espécie, Hermeto Paschoal, que sempre dizia que ele próprio havia “aprendido música”, no sentido formal da expressão, depois dos 40 anos. Ora, um homem que fazia música desde sempre e com qualquer coisa que estivesse ao alcance das mãos, reconhecido e respeitado em todo o mundo, ao dizer isso se mostrava o melhor avalista possível para o sistema que ela pretendia implementar. E assim o fez.

Com o Instituto funcionando a pleno e já alcançando alguma fama, apareceu na escola, levado por um tio, um menino de 10 anos, de quem se contavam maravilhas a respeito do talento. O tio que o levou era ele mesmo um músico amador muito bom, mas queria que o sobrinho fosse além, se tornasse profissional. O garoto tinha sido batizado como João Sebastião em homenagem ao grande compositor alemão. Pelo menos ela pensou isso até descobrir que era acaso, o nome era uma homenagem ao avô materno. Mas era de fato um talento superior, o que não lhe garantiu tratamento diferenciado, pois a regra da escola era igualdade plena. Exatamente isso foi o que depois de algum tempo começou a desagradar o tio, que pediu uma entrevista com a direção do Instituto.

Ana recebeu o tio de João Sebastião na sala de reuniões, já que ela própria não achava importante ter uma sala somente sua. Notou o seu descontentamento já na maneira como perguntou que avaliação poderia ser feita do menino até aquele momento. Achou o tom das palavras, da maneira como foram postas, um tanto quanto agressivo. O próprio questionamento não era lá muito comum, mas uma das virtudes desenvolvidas por ela ao longo dos anos era a paciência e a busca permanente por compreender as razões das pessoas em suas posturas e manifestações. Explicou que não julgava necessário fazer avaliações temporárias, que o método pedagógico desenvolvido na escola encontrava muito mais eficácia nas autoavaliações dos alunos e na observação do próprio desenvolvimento de cada um dentro das suas propostas e necessidades. Sem ser exatamente grosseiro, o tio falou que não era essa a expectativa que tinha da escola e que daria mais um tempo, mas se não visse avanços em dois ou três meses, cancelaria matrícula do sobrinho. Ana disse que ficasse à vontade, que o Instituto não estabelecia contratos por tempo determinado com os alunos, que poderiam deixar a escola a qualquer momento. Também não se prendeu a maiores explicações ou a insistir para que ele deixasse o menino estudando lá por mais tempo, mesmo que soubesse que isso seria muito bom para o jovem músico, inclusive nos aspectos de sua formação profissional, anseio do tio. Não pretendia de maneira nenhuma prender ninguém aos seus métodos. Não conseguiu conter alguma tristeza, depois que o homem saiu, porém, porque realmente enxergava aquele menino com olhos um pouco diferentes e aquela conversa tinha lhe deixado a certeza que ele iria deixar o Instituto em pouco tempo.

Aquela sensação estava correta e pouco mais de um mês após o encontro, o tio procurou a direção da escola para dizer que o sobrinho não iria mais estudar lá. Sendo o desligamento dos alunos um trâmite burocrático do qual não tomava parte, Ana não teve oportunidade de conversar novamente com o tutor do menino, mas não deixou de se despedir do aluno e de lhe desejar boa sorte, dizendo que as portas do Instituto estariam sempre abertas. Parecia estar prevendo a volta do jovem, mas, na verdade, estava naquela hora apenas externando um desejo.

Alguns anos depois, foi chamada uma tarde na recepção da escola para receber uma carta que, segundo o carteiro, só poderia ser entregue a ela. Algo bastante curioso, porque dificilmente recebia qualquer tipo de correspondência pessoal na sede do Instituto. Era um convite para um concerto que ocorreria dali a duas semanas no Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Um espetáculo coletivo em que jovens músicos, estudantes ou formandos em um dos conservatórios mais tradicionais do país, apresentariam diversos números em homenagem a John Coltrane pela passagem de 90 anos do seu nascimento. Ana ficou muito animada e mais ainda quando viu que a música A love supreme seria interpretada por um certo João Sebastião Ribeiro, a quem ela reconheceu como aquele antigo e talentoso aluno. A pessoa que enviou o convite assinou como empresário do jovem instrumentista. Dentro do envelope, além do convite, uma mensagem escrita à caneta: “Tenho a honra de lhe convidar para conferir ao vivo o grande músico em que se transformou meu sobrinho.” Um pequeno desconforto foi causado por esse bilhete. Ana era muito sensível e percebia com facilidade as intenções que se escondiam por trás de algumas supostas cordialidades. Percebeu na hora que o homem estava querendo lhe fazer algum tipo de provocação, sugerindo que o menino havia se transformado em um grande músico depois de ter deixado o Instituto. De qualquer forma, em momento algum pensou em não aceitar o convite.

Chegou ao Rio com aquela satisfação de quem fica algum tempo sem visitar a cidade. No caso dela, dois anos já haviam se passado desde a última estada por lá. Por conta disso, programou a viagem para alguns dias antes do concerto, pois queria andar pela Cidade Maravilhosa, visitar alguns dos tantos amigos que tinha por lá, tomar um chope no Garota de Ipanema, revisitar Tom e Vinícius pelos lugares em que criaram as suas músicas, enfim, curtir um pouco o astral daquele lugar tão lindo e tão musical.

No dia do concerto, chegou bem cedo, a atmosfera do Teatro Municipal sempre lhe provocava boas lembranças e emoções. Na entrada, recebeu o programa do concerto e ficou bastante feliz por ver o destaque conferido ao seu ex-aluno. Na breve apresentação, entre outras qualificações, leu “a grande revelação, o virtuose que, apesar da pouca idade, conta no currículo com apresentações nas mais conceituadas casas de concerto do Brasil e do mundo...”. Da plateia pode observar a chegada do tio, que agia exatamente como deve constar no manual dos empresários musicais, pensou ela, arrependendo-se logo em seguida da ideia maldosa. Mesmo se policiando para não nutrir pensamentos rebaixados, notou de pronto o deslumbramento que o sucesso do sobrinho provocara no “empresário” e não conseguiu deixar de se entristecer um pouco. Mas deixou passar esse sentimento, afinal, cada um escolhe o caminho que vai seguir.

O concerto foi maravilhoso, uma verdadeira benção para Ana, afinal ver o seu grande ídolo, o homem que despertara nela a paixão e o amor pela arte, ser homenageado por jovens tão talentosos, era algo realmente especial. O número interpretado por João Sebastião foi particularmente bonito. Poucas vezes tinha visto uma interpretação de A love supreme carregada com tanto sentimento. E considerava extremamente difícil isolar aquilo que entendia como um fragmento de uma grande peça musical dividida em quatro partes. O feeling do jovem saxofonista, entretanto, fez superar essa pequena dificuldade, e a técnica apuradíssima que já dominava, encontrou equilíbrio perfeito com a aura espiritual da música. Tudo complementado pela banda que o acompanhava, que era ótima. Naquele momento percebeu que estivera um pouco nervosa, inconscientemente, com a possibilidade de se decepcionar com a atuação do rapaz. A satisfação foi redobrada ao final da música, por conta daquele receio que não se confirmou.

Decidida a deixar o teatro à francesa, mudou de ideia ao perceber uma leve tristeza indisfarçada no momento em que João Sebastião procedeu aos agradecimentos de praxe. Resolveu ir até os camarins, com a desculpa de cumprimentar algumas pessoas que conhecia, principalmente da produção do espetáculo. O que queria mesmo, por óbvio, era chegar perto do seu antigo aluno e desfazer aquela sensação que tivera, pois entendia que ele deveria estar muito feliz com o seu desempenho e com o sucesso do espetáculo. Antes, perdeu alguns minutos preparando-se para um eventual encontro com o empresário e para alguma colocação desagradável que ele porventura pudesse lhe fazer, o que acabou ocorrendo de fato, mas sem que ela sequer registrasse na memória. O tio, na rápida conversa que tiveram, teria lhe dito algo sobre um verdadeiro ensino de música ou coisa parecida, mas ela conseguiu evitar que isso abalasse a vontade de dar um abraço no grande intérprete que lhe proporcionara a alegria de ver e ouvir o seu mestre sendo tocado de forma tão pura e com tanto amor.

O encontro com João Sebastião teve algo de emocionante e Ana confirmou a suspeita que o rapaz não estava exatamente feliz naquela condição. O tio/empresário ficara o tempo todo na volta e disse que em breve passariam em turnê pela cidade dela, propondo que ela organizasse uma apresentação no Instituto. (A “cidade dela”, pensou Ana, era a cidade dele, mas agora ele era um cidadão do mundo...) Disse, ainda, que não cobrariam cachê para tocar lá, ao que fingiu estar muito agradecida, apenas perguntando a João se ele gostaria de tocar lá, recebendo como resposta um sim que deixava transparecer um certo constrangimento.

Ana decidiu levar a sério a proposta e organizou uma apresentação de João no Instituto. Seria uma espécie de aula inaugural dos cursos daquele ano. Por sugestão, ou melhor, como condição imposta pelo empresário, ele interpretaria peças ao piano, pois como ela já tinha visto o seu talento de saxofonista, era importante que soubesse que era também multi-instrumentista. O repertório seria de standards do jazz.

No dia do espetáculo, Ana cuidou pessoalmente de todos os detalhes para que tudo desse certo. Desde a recepção aos convidados até os breves discursos de apresentação, tudo foi acertado para que aquela fosse uma noite inesquecível. E foi mesmo. Realmente o jovem músico era dotado de um talento singular e todos os presentes ficaram maravilhados com o espetáculo. Algo, porém, soou estranho a Ana. Ao contrário da noite no Rio, ali ela percebeu uma certa superficialidade na interpretação das peças, que foram escolhidas pelo empresário. Sabendo que eles passariam mais alguns dias na cidade, decidiu conversar em particular com João. Como o empresário era dado a bajulações, ela pediu a algumas pessoas da sua equipe que o distraíssem durante alguns minutos no coquetel, tempo em que levaria o jovem para uma sala reservada para que pudessem conversar despreocupadamente.

Não foi muito difícil atrair a atenção do tio/empresário com perguntas sobre a carreira do jovem pupilo, as viagens que faziam, as casas de espetáculo, enfim, tudo o que de deslumbrante houvesse no show business. Enquanto isso, ela tentava arrancar de João Sebastião alguma pista que lhe pudesse desvendar o motivo daquela melancolia que julgava ver no rapaz. Concluiu que uma das razões daquela tristeza que de fato existia era que ele fazia tudo aquilo muito mais por influência e até exigência do tio, que assumira o controle da sua carreira e mesmo da sua vida. João era um músico na essência daquilo que Ana considerava sê-lo. E, mesmo contrariando a postura que adotara ao longo da vida, de deixar as pessoas livres para que traçassem os seus próprios caminhos, decidiu intervir. Estava já numa idade em que eventuais decepções poderiam ser toleradas com mais facilidade e, ademais, achava que não iria se decepcionar.

Arquitetou um plano que consistia em fazer um workshop com o jovem músico, destinado aos alunos mais avançados e aos professores do Instituto. Pediu que o empresário estabelecesse o valor do cachê, pois desta vez era um convite profissional. Ao rapaz, de quem já havia conseguido a confissão que pouca coisa lhe agradava naquele mundo artificial em que o tio estava com ele desbravando, pediu apenas que confiasse nela, não sem antes se certificar que realmente o jovem estava disposto a abrir mão, pelo menos por um tempo, do glamour, da fama quase instantânea e mesmo do dinheiro que aquilo tudo representava. Quando ele disse que não desejava ser rico nem famoso, queria apenas tocar e ser feliz fazendo música, ela teve a certeza de estar fazendo a coisa certa.

Combinou com João o plano, mas guardou a parte mais importante em segredo. No workshop, João tocaria algumas músicas de um repertório previamente estabelecido, e Ana faria os comentários e as intervenções técnicas. Seriam sete peças musicais, de diferentes graus de dificuldade, interpretadas a partir das partituras do acervo do Instituto, já com as devidas anotações usadas nas aulas. João tocou seis músicas, de maneira brilhante, entremeadas com os comentários de Ana e as perguntas e colocações dos participantes. Antes que tocasse a sétima peça, porém, Ana propôs uma troca. Pegou outra partitura em que estava anotado no alto o nome da música, “Naima”, de John Coltrane. Sabia que João conhecia a música, ela mesma havia mostrado a ele em uma de suas aulas, e já tinha se certificado durante a conversa que ele nunca a havia tocado. A interpretação foi tão perfeita tecnicamente e tão carregada de sentimentos que, além dos aplausos efusivos da plateia, arrancou lágrimas dos olhos de Ana e quase a fez desistir do plano. Mas o amor pela arte falou mais alto e ela tomou a palavra:

- Meu querido João Sebastião, com exceção das vezes em que ouvi o próprio Coltrane tocar esta música, e tive a sorte de vê-lo ao vivo, esta foi a mais bela interpretação. Em arranjo para piano, nunca ouvi nada parecido. Você poderia me alcançar, por favor, a partitura?

João entregou a folha e Ana prosseguiu:

- Interessante! Alguma vez antes você já havia interpretado esta música?

Esta era a parte do plano que Ana tinha omitido de João e, mesmo sem entender direito, depois de tantos anos o rapaz tinha na antiga professora uma confiança tal que o fez permanecer tranquilo e simplesmente responder:

- Não, professora, é a primeira vez que eu toco.

Ana, que teve de se refazer rapidamente da surpresa e da emoção que teve ao ouvir o rapaz lhe chamar de professora, continuou:

- Mas já tinha ouvido a música anteriormente?

- Sim, ouvi uma vez quando a senhora usou como exemplo em uma de suas aulas.

- E somente aquela vez?

- Sim.

- Isso foi há mais de dez anos, João, e mesmo tendo ouvido apenas aquela vez a música, hoje você fez uma belíssima interpretação.

Virando-se para a plateia, prosseguiu:

- Devo dizer a você e a todos aqui presentes que estamos diante de um grande gênio da música.

Ao dizer aquelas palavras, havia tanto carinho e admiração nos olhos de Ana que o público irrompeu num aplauso que durou alguns minutos.

- Meus queridos amigos e minhas queridas amigas, colegas, vocês realmente não podem ter neste momento a compreensão exata do talento deste jovem músico. Todos ouviram o que ele disse sobre nunca ter tocado a música e sobre tê-la escutado apenas uma única vez, e isso aconteceu quando ele era ainda uma criança, que, aliás, alguns de vocês conheceram ao chegar nesta Casa, trazido por este mesmo tio que hoje é seu empresário. Acontece que esta partitura que eu tenho nas minhas mãos não é a da música que todos acabamos de ouvir na interpretação maravilhosa deste pianista.

As pessoas que estavam ali, musicistas experimentados, alunos e alunas de nível avançado, professores e professoras, ficaram perplexas e o tio/empresário que estava sentado próximo ao piano olhou para João com ar de reprovação, mas este, que a esta altura já começava a perceber aonde a professora queria chegar, manteve-se impassível.

Ana continuou:

- Sei que vocês não estão entendendo muita coisa do que está ocorrendo aqui, mas quero que saibam que este maravilhoso músico que nos brindou hoje com uma apresentação digna dos maiores concertistas do mundo, não sabe ler uma única nota na pauta musical.

Naquele momento, também o empresário começava a entender os fatos e um constrangimento tomou conta do seu espírito. Ana percebeu isso e, diante dos olhares entre confusos e surpresos dos presentes, não demorou a dizer:

- Não se preocupe, meu senhor, não estou fazendo isso para deixá-lo em situação desagradável. Não faço nenhum tipo de julgamento dos seus atos e dos motivos que o levaram a adotar essa conduta com o seu sobrinho. Pelo contrário, não fosse pelo senhor, talvez o mundo hoje não pudesse conhecer o talento deste jovem. Tudo o que quero agora é reconduzir o nosso querido João Sebastião ao caminho que o levou a seguir a música como uma profissão. Este jovem é verdadeiramente um gênio, de tamanha grandeza que conseguiu superar todas as dificuldades que a “burocracia da arte”, que tantos talentos já fez sucumbir, lhe impôs pelo caminho. A prova foi dada hoje. Tivesse desperdiçado um minuto do seu tempo e deixado de lado por um único instante o amor que tem pela música, para se dedicar a aprender técnicas e teorias, tenho convicção plena que não estaria aqui hoje.

Todos estavam maravilhados com a maneira como Ana estava transformando aquele momento em uma verdadeira aula não só de música, mas de vida.

- Como me disse certa vez um querido amigo e mestre, não é a pauta que faz o músico, muito menos a cabeça, mas sim o coração. E um coração aberto para a arte é exatamente o que bate no peito deste jovem. O mesmo coração que pulsava no grande John Coltrane quando escreveu a peça que, de ouvido, apenas por uma lembrança de tantos anos passados, o nosso João tocou há poucos minutos, nos fazendo tocar a emoção; o mesmo coração que movia o homem que inspirou instintivamente os pais deste jovem prodígio a lhe darem nome tão bonito e significativo, Johann Sebastian Bach. Só mesmo os gênios, seres verdadeiramente iluminados, têm essa capacidade de dispensar formalidades, de estar além das teorias e das receitas. Músicos como este menino, que são cada vez mais raros, nos ajudam a recolocar as coisas nos seus devidos lugares. A técnica deve estar a serviço da arte e não o contrário. Ao aceitar fazer de conta que tocava a música pelo papel que estava à sua frente, nesta e em tantas outras ocasiões, João não estava sendo um impostor, como podem pensar alguns, apenas dava a uma formalidade deste tipo a importância que ela tem: nenhuma. Quando existe alma, meus queridos, quando existe um coração movimentando o corpo e a mente, tudo mais é dispensável.

Ana fez uma pequena pausa, tempo suficiente para que pudesse olhar em volta e ver alguns de seus colegas tomados pela emoção deixando correr algumas lágrimas de seus olhos. Em seguida, voltou-se para João e disse:

- Meu querido João, hoje você está pronto para começar a aprender a “burocracia da música”, se assim for SEU DESEJO. - Disse isso escandindo as sílabas e com o olhar ligeiramente voltado para o tio/empresário. - Já não vai se perder nela, já não vai mais permitir que ela lhe transforme num autômato, num repetidor de frases e melodias; hoje você está apto a mostrar o lugar que a técnica e a teoria devem ocupar, o lugar acessório, a posição de meras coadjuvantes da arte que flui naturalmente da mente e das mãos de um gênio como você. O resto, bem... o resto é amor supremo.

Treze

- A la pucha!, que não falo com homem que não tem nome! Nome de gaúcho é Pedro, Paulo, João, Juvenal, o resto é apelido!

- Mas o homem tem patente, foi capitão.

- Pues aí é que não falo mesmo! Patente é de coronel pra cima, o resto é latrina! Capitão só teve um na história que merecesse meu respeito! E nem existiu de verdade…

- Mas, Juvenal, pensa bem, homem…

- Não tem mas nem meio mas, não falo e pronto! E te apronta pro envido que hoje eu tô cuiudo de mão!

Lúcio, o homem de quem falavam na mesa de jogo, chegou até capitão e desistiu da carreira militar. Era o sonho do seu pai, não o seu. Teve coragem para largar tudo e recomeçar a vida. Sempre alguém destacava isso. História sempre foi sua verdadeira paixão. História e o ser humano. A história do ser humano. Por conta disso formou-se historiador e fez doutorado em antropologia. Antes, porém, no mestrado, surgiu o interesse pela história dos negros no Rio Grande do Sul. História muito mal contada, diga-se de passagem. E esta seguiu sendo a sua tese até o doutoramento, mas mais do que um título e um trabalho acadêmico, foi missão de vida mostrar que nas terras do Continente de São Pedro teve escravidão, sim, e das mais brutas. Somente há pouco tempo tinham começado a falar disso com seriedade, mas ainda não era do jeito certo. E por isso mesmo, pelas dificuldades impostas pela própria universidade, que, apesar dos grandes avanços dos últimos anos ainda mantinha um certo conservadorismo nos estudos desta área, decidiu se aposentar e levar adiante pelos seus próprios esforços as pesquisas. Foi assim, derrubando barreiras, vencendo medos e preconceitos, desbravando caminhos por entre os documentos antes secretos dos arquivos públicos e privados - ou que sobrou deles -, que chegou até o lugar onde viveu o Negro Custódio, figura lendária e peça chave do período que antecedeu a abolição. Do pouco que se sabe, teria sido mais difícil e certamente mais demorado o processo de libertação dos escravizados se não fosse a sublevação liderada por ele no garrão do país, para usar o jargão da região. Dizem até que sua luta atravessou fronteiras e cruzou mares, inspirou o batismo de outro Custódio, um homem que viveu na capital do estado pelos anos de 1900, originário do Daomé, onde era membro de uma casa real, conforme a lenda. Mas isso é História para outra história.

Fazia alguns dias que Lúcio estava hospedado no único hotel da cidade. Uma pensão, na verdade, o que de maneira nenhuma o incomodava, acostumado que era a viver sem luxo. Já tinha visto várias vezes o homem que mandava no lugar, o único que poderia lhe facilitar o trabalho de pesquisa. E sabia também que este andava a monitorá-lo. Sabia da (má) fama do sujeito e por isso mesmo estudava cada passo da aproximação. Qualquer pequeno deslize poderia lhe custar muito mais do que a tese.

Juvenal de Menezes Neto, também chamado de Juvenal Terceiro, não era delegado, mas quando queria deixar alguém na cadeia, nem o juiz da comarca conseguia soltar. Não era político constituído, mas nunca nenhum prefeito se elegeu sem o seu aval. E antes dele, o pai, o avô e o pai do avô, enfim, uma linhagem de pró-homens, como gostavam de se adjetivar. Diziam que o próprio Deus, em tempos ancestrais, delegou ao primeiro daquela casta superior a função de cuidar do povo da aldeia. E ao fazer isso tratou de esquecer do lugar... Era Neto como poderia ser Filho ou Bisneto, porque parece que todos se chamavam Juvenal naquela família de homens importantes. Dizer-se Neto, porém, conferia um ar imponente. E o ordinal que por vezes acompanhava o nome era, como Lúcio deduziu com o tempo, uma mistura de homenagens, a Napoleão Terceiro, ao Terceiro Reich, mas, principalmente, ao Terceiro Império Brasileiro, sonho megalomaníaco de monarquistas saudosos, tradição herdada por aquele Juvenal.

Um pesquisador competente não poderia dispensar esse tipo de informação acerca de alguém por quem inevitavelmente teria de passar o seu trabalho. E o currículo do homem não deixou de assustá-lo um pouco, por isso levou mais tempo do que pretendia antes de travar o primeiro contato efetivo. Quando se sentiu seguro para fazer esta abordagem inicial, chegou de surpresa na mesa de truco e perguntou se poderia fazer uma parceria para participar do jogo. Um arrepio passou pelos convivas ao mesmo tempo em que Juvenal o mirou de cima abaixo, como fazia com qualquer “forasteiro”.

- Mas um moço de tão fino trato lá vai saber dar as cartas nessa humilde carpeta de peão?

Lúcio não entendeu muito bem a razão dessa observação feita sobre si, “moço de fino trato”. Nada na sua maneira de se vestir ou no seu jeito indicava que fosse alguém de “fino trato” na acepção que julgou ter sido dada à expressão. E também já não era propriamente um moço há alguns anos. Mas isso serviu para que percebesse a necessidade de parecer mais adaptado ao contexto, o que não lhe traria grandes problemas, pois quem se dedica à pesquisa das coisas da natureza, em sentido amplo e restrito, deve desenvolver uma espécie de habilidade camaleônica para transitar nos diversos meios a que a profissão lhe obriga. Ademais, sempre tinha em mente, quando saía ao trabalho de campo, a frase irônica, mas de grande sabedoria, de um de seus ídolos: “para entrar no buraco dos ratos tem que se passar por rato” (Raul Seixas). E como a presença de espírito sempre foi uma de suas características marcantes, saiu falando na língua do jogo:

- Pois está tudo dito na lei do jogo, Don Juvenal.

- Vejo que o moço sabe do que e com quem está falando.

- E como não haverá de saber, meu superior, quem por essas bandas chega?

O homem gostou da conversa do sujeito.

- Pues tome assento na mesa, esta rodada já se vai ao fim. Na próxima o amigo entra com um dos parceiros que perder. Lhe serve?

- Mas bah! Se os amigos não se importarem, claro.

- Não, não se importam. OU SE IMPORTAM?? - gritou o coronel, para logo depois cair numa gargalhada, seguido por toda a mesa.

- E toma alguma coisa?

- O mesmo que os amigos.

- Manoel, me ponha uma daquela que matou o guarda no copo do amigo!

A expectativa pelo que ia se desenrolar a partir daquele encontro tomou conta do armazém onde o jogo acontecia. Todos já tinham notado que Lúcio era, no mínimo, um homem de coragem, pois poucas vezes alguém havia abordado o Marechal (outro dos tantos apelidos de Juvenal) daquela maneira, pedindo logo para participar da mesa de truco. E se alguém o fez, por certo não se saiu bem. Mas estranhamente Juvenal parecia ter simpatizado com o pesquisador.

Lúcio tomara gosto pelo truco ainda criança, jogava no quartel e durante a faculdade retomou o hábito. Dominava a técnica do jogo, mas não tinha a malandragem, mesmo assim, neste aspecto conquistou a admiração do velho caudilho, que o convidou para tomar parte novamente no jogo da noite seguinte, causando certo espanto nos outros jogadores e nos que observavam a cena.

Como fosse um jogo de paciência, Lúcio começou a participar das carteadas sem nunca tocar no assunto que o trouxera até ali. Procurava se inserir nas conversas do grupo e tentava tratar a hierarquia criada em torno de Juvenal com naturalidade. Pensava sempre numa história que constava da biografia do Senador Pinheiro Machado, o homem forte dos primeiros anos da república: conta-se que certa feita, ao ter que deixar a casa onde se encontrava, tendo que passar em meio a uma multidão hostil, ordenou ao cocheiro que fosse “nem tão devagar que parecesse afronta, nem tão ligeiro que parecesse medo”. Com esse ensinamento do grande político, levava as conversas na mesa de jogo, investindo um pouco mais em alguns momentos, para mostrar segurança, retraindo-se um pouco em outras ocasiões, de modo a parecer respeitoso, mas nunca amedrontado. Esta técnica parecia dar certo, porque a cada noite sentia que estavam todos mais à vontade na sua presença.

Juvenal, que era muito bem informado sobre todos os acontecimentos nas cercanias dos seus domínios, sabia desde a chegada de Lúcio que este pretendia pesquisar ou investigar alguma coisa, só não sabia o que, mas não tinha nenhuma intenção de tratar de qualquer assunto do passado da cidade ou da família com alguém de fora. Nem aos “de casa” era dado o direito de conhecer a fundo as historias del pueblo, a não ser pela perspectiva que ele mesmo tratava de apresentar e manter como verdade. Desse jeito mantinha-se a ordem e os dentes todos no lugar, como já dizia seu pai. Desde tempos imemoriais tinha sido assim e não havia nenhuma razão para deixar de sê-lo. Todos viviam bem naquelas condições.

Os moradores da cidade, que não eram muitos, por costume e conveniência adaptaram-se a viver daquela maneira. Doutor Juvenal, como também era conhecido pela população, embora mal soubesse assinar o próprio nome, garantia a segurança e a tranquilidade, então ninguém encontrava motivos para ir contra o que já tinha se estabelecido em tempos de antigamente, como se dizia no linguajar local. Quando alguma coisa andava fora da ordem, não era às instituições oficiais que recorriam, mas sim a quem poderia resolver os problemas da melhor maneira possível. E de alguma forma tudo sempre era resolvido.

A história do tal Negro Custódio era mais ou menos conhecida por todos, mas ninguém falava no assunto. E se lhes perguntassem o motivo do silêncio, não saberiam dizer, apenas era assim. Há coisas que não precisam de motivo que as justifique, basta que sejam.

Não se imaginava que Lúcio tivesse vindo à cidade para fazer pesquisas a respeito deste assunto. Se alguém tivesse desconfiado disso, é possível que o historiador não tivesse permanecido por um único dia na região: ou o “patrão” teria dado um jeito de expulsá-lo, ou alguém o teria convencido a abandonar aquela ideia. Tornou-se, então, um tanto misteriosa a sua presença. Sabiam que buscava alguma informação, mas não podiam descobrir qual. E ele mostrou habilidade para manter esse segredo indevassável.

Certa noite, quando já poderia se considerar um bom jogador de truco e parecia ter conquistado definitivamente a confiança de todos e definitivamente a simpatia de Juvenal, cuja casa inclusive era convidado a visitar com alguma frequência, Lúcio decidiu que era hora de avançar um pouco mais. Nos encontros com o caudilho e com outras pessoas da cidade, já havia conseguido reunir alguns dados importantes para a pesquisa, mesmo sem nunca ter citado o nome ou feito qualquer referência ao homem que motivava o seu estudo. Mas andava um pouco impaciente e decidiu arriscar. Tendo-lhe brindado a sorte com uma boa mão, disse um verso, conforme a tradição do jogo:

- Conheci Negro Custódio,

em noite enluarada,

na porta do cemitério,

botando flor na encruzilhada.

Um pintor renascentista não haveria de retratar com fidelidade a cena que se formou naquele momento. Por um instante, o mundo pareceu parar de se mover para observar o que aconteceria ali. Por reflexo, todos voltaram os olhos para o Marechal. Para surpresa geral, este não manifestou nenhuma reação, apenas lamentou, ao final do jogo, com as cartas já baixadas, que aquela flor tivesse lhe impedido de “envidar os pagos com o seu trinta e três de espada”.

Por insignificante que fosse aquela situação em relação à pesquisa, para Lúcio foi como se lhe tivessem tirado uma tonelada de peso das costas, pois pela primeira vez em tanto tempo havia conseguido pronunciar publicamente aquele nome, que para ele sempre esteve envolto numa grande áurea de mistério. E sentiu um certo alívio pela reação inesperada de Juvenal, já que o mínimo que esperava era que o homem demonstrasse alguma irritação. Essa sensação de alívio, porém, acabou sendo efêmera. Durou até que chegasse de volta ao quarto da pensão e visse ao pé da porta um bilhete, escrito à mão, que dizia apenas: “Quem semeia ventos, colhe tempestade, cuidado com a gravata colorada.” Sabedor que era do quase analfabetismo de Juvenal, tinha certeza que não era dele a letra no papel. Ademais, como estiveram o tempo todo na mesa de jogo, não teria tempo para que tivesse escrito o bilhete e mandado alguém colocá-lo debaixo da porta. Aquele mistério não teria como desvendar, mas a forma como fizera chegar o recado era o que menos importava. Lúcio tinha certeza que fora a seu mando e conhecia perfeitamente o sentido de tudo o que estava escrito. Tratava-se de um velho provérbio, provavelmente de origem bíblica, muito usado no Rio Grande do Sul para advertir aqueles que não têm cautela ou praticam o mal, das consequências dos seus atos ou palavras (quem semeia ventos colhe tempestade). Na visão das filosofias orientais, que mais lhe agradavam, poderia ser interpretado como a lei do carma, pela qual se diz que toda a ação gera uma reação. Usou esse pensamento como uma forma de se tranquilizar, pois não acreditava estar fazendo algo de errado ou prejudicial a alguém, pelo contrário, trazer à luz algo mais daquele período histórico certamente contribuiria para evitar que os erros do passado fossem repetidos, que é, em síntese, o objetivo último de todo o trabalho de investigação daquela natureza. E a expressão gravata colorada era um eufemismo para a degola, forma preferencial de execução durante aquela que é considerada por muitos a mais cruel e sanguinária guerra civil já havida em território sul-americano – isso dizia inclusive o historiador Décio Freitas, referência maior de Lúcio na profissão. Exagero ou não, o fato é que o episódio foi marcado por extrema violência e subversão dos valores humanos. Em relação ao bilhete, também outro detalhe ficou a martelar na sua cabeça, pois não sabia dizer se teria sido coincidência ou não o fato da ameaça ter sido feita por intermédio de uma expressão que lembrava a Revolução Federalista de 1893. Neste levante, um personagem foi erigido à condição de lenda: diz-se que o coronel maragato Adão Latorre passou à faca, numa única tarde, na região que hoje fica próxima à cidade de Bagé, as gargantas de 300 prisioneiros adversários. Mais um exagero, talvez, mas pareceu significativo a Lúcio a referência possível a outro negro, tornado famoso por motivos distintos do seu personagem, mas ainda assim um negro.

Aquela noite foi passada em claro, como não poderia deixar de ser. Passou pela sua cabeça até mesmo abandonar a pesquisa e sair da cidade. Pensou, com um senso de humor um tanto mórbido, que, apesar do vermelho ser a sua cor predileta, sempre detestou usar gravata. Passou em revista os estudos que vinha fazendo há tanto tempo sobre o tema, lembrou da inspiradora valentia de tantos personagens, muitos dos quais deram a vida em nome da causa, o próprio Custódio sendo um deles, e decidiu seguir em frente.

Antes que o sol desaparecesse estava já postado à mesa de jogo. Queria chegar antes de todos, principalmente do Marechal. Decidiu agir como se nada tivesse acontecido, no que parece ter sido imitado pelos parceiros. Não se disse uma palavra sobre a noite anterior, exceto quando Juvenal falou que esperava a mesma sorte na mão de Lúcio naquela rodada, pois queria que fosse ele seu parceiro no jogo. O bom humor do homem trouxe um ar de tranquilidade não só ao pesquisador, mas a todos no armazém. De acordo com a estratégia que traçara, que consistia em avanços e recuos, nos próximos dias não cometeria nenhuma ousadia. Deixaria a poeira baixar.

As noites começaram a trazer alguma insônia desde o episódio do bilhete. Por mais que tentasse não pensar no assunto, sempre lhe ocorria algo, mas nada que o fizesse mudar os planos ou arrefecer o desejo de contar aquela história. Com uma grande capacidade de manter tudo em segredo, foi juntando material para o trabalho e mesmo que não tivesse ainda conseguido adentrar especificamente em fatos elucidativos da biografia do Negro Custódio, os eventos paralelos que ia descobrindo contribuíam para aumentar cada vez mais a admiração por aquele verdadeiro herói quase anônimo, como são, aliás, tantos os que construíram a história verdadeira do país, e esta era uma das premissas do seu trabalho, pois das honrarias aos heróis constituídos a historiografia oficial já se encarregava há muito tempo, desde sempre, a bem da verdade. Uma das descobertas mais importantes foi que a família Menezes tinha sido proprietária de uma das maiores charqueadas do Rio Grande do Sul. Não naquela cidade e sim na região mais próxima à fronteira com o Uruguai, como convinha para facilitar o trabalho de dificultar a entrada do produto estrangeiro. Na dissertação de mestrado, ele abordava especificamente a questão das charqueadas, mostrando que lá os escravizados, em sua grande maioria negros, sofriam violentamente, pois trabalhavam de sol a sol, expostos às intempéries, trabalhando os cadáveres dos animais que se transformavam no charque, produto principal da economia gaúcha durante muito tempo até o século XIX. A lida diária com a carne, muitas vezes em estado de putrefação, com o sal, além de todas as atividades paralelas, em nada tornava mais fácil a vida dos negros das charqueadas na comparação com aqueles trabalhadores dos engenhos de açúcar do nordeste do país, por exemplo. A partir daí começou e entender melhor a necessidade que tinha o herdeiro da tradição da família Menezes de manter o passado em segredo. Quantos negros teriam sido torturados e mortos pelos seus antepassados? Quem sabe o próprio Custódio, o que era para Lúcio quase uma certeza.

Apesar da dificuldade em dormir, que vinha lhe acometendo ultimamente, ficou surpreso quando acordou certa noite em grande sobressalto. Em geral não costumava fazer isto, mas olhou para o relógio e viu que eram 2 e 15 da manhã. Quando acordava no meio da noite, bastava-lhe olhar pela janela, que sempre deixava semiaberta, e ver que ainda estava longe de raiar o dia, para que voltasse a dormir. Naquele momento, porém, estranhamente sentiu necessidade de se certificar do horário. E também ao contrário do que normalmente acontecia, lembrou com precisão do sonho, praticamente um pesadelo, que lhe fizera acordar daquele jeito. Nele havia apenas a imagem de um negro, que falava com um sotaque estranho, misturando castelhano, espécie de dialeto falado na região, em que se fundem elementos de português e espanhol, com fragmentos que ele identificou como sendo de yorubá, língua africana falada na região da Nigéria, de onde vieram muitos dos negros que foram escravizados no Rio Grande do Sul, e que era usada ainda, no Brasil, em rituais religiosos, principalmente. O negro parecia estar lhe dando algum tipo de aviso, mas ele não conseguiu entender muito bem, pois no momento em que parecia começar a dizer alguma coisa relevante, desapareceu, e foi justamente nessa hora que acordou.

Não era um sujeito impressionável, mas naquela manhã não conseguiu deixar de pensar no estranho sonho da noite. Também achou diferente a maneira como o estavam tratando as pessoas com que conversava diariamente, desde a velha senhora que lhe servia o café na pensão, sempre muito amável e solícita, até o gordo e bonachão Manoel, dono do armazém, que sempre tinha uma piada pronta ou uma pegadinha em que ele invariavelmente caía. Mal lhe cumprimentaram aquele dia. Quando voltou à pensão para ler o jornal no quarto, como fazia todas as manhãs, empalideceu ao ver que o pequeno aparelho em que registrava as anotações de suas pesquisas havia sido manipulado. Embora ainda preferisse o método mais convencional, caneta e papel, havia optado por aquele moderno equipamento justamente por ser mais discreto e fácil de ocultar. Mesmo assim mantinha vários cadernos, em que fazia anotações diversas, a fim de dificultar e mesmo impedir qualquer invasão aos seus arquivos realmente importantes. Entendia que o tempo que alguém perdesse tentando decifrar as notas esparsas seria suficiente para que ele pudesse manter em segredo os verdadeiros apontamentos. Com tudo isso, metódico e cauteloso que era, por questão de segurança, sempre que saía deixava o aparelho milimetricamente colocado na mesma posição na pequena mesinha de cabeceira, então não foi difícil perceber, ao primeiro olhar, que alguém havia mexido nele. Nunca deixava o quarto antes que a camareira fizesse a limpeza, pois sabia que ela era a única pessoa, além dele próprio, que entrava lá, então, se ele estava em posição diferente daquela em que sempre permanecia, é certo que fora tocado por outras mãos que não as suas. O aparelho ainda estava protegido por dois sistemas de segurança codificados, os mais avançados que a tecnologia havia disponibilizado até aquele momento, então provavelmente o invasor não obteve sucesso, mas se foi mexido, alguma coisa estranha estava acontecendo. “E justamente quando as descobertas em relação aos negócios da família avançavam...” Com este pensamento saiu novamente à rua, mas poucas quadras à frente, bem perto da parte em que o rio começava a margear a cidade, tudo ficou escuro de repente...

Arquivado o inquérito que investigava a morte do pesquisador aposentado Lúcio Cantareira.” Esta manchete estampava a capa da edição do jornal da universidade recém saído da gráfica. Dentro, a matéria dizia que o delegado responsável pelo caso concluíra, em tempo recorde, pela ocorrência de suicídio, já que nada nos autos foi apurado que pudesse sugerir outra causa para a morte. O texto trazia ainda uma entrevista com o empresário rural Juvenal de Menezes, que lamentava muito a perda do amigo e dizia não entender o que tinha motivado aquele ato extremo, pois “falava até em fixar residência na cidade, tão adaptado estava”. Sobre as pesquisas que o historiador fazia, disse não saber nada, “era um homem muito reservado no trato dos assuntos profissionais”.

Um livro publicado alguns anos mais tarde trazia nos seus agradecimentos uma menção a “Lúcio Cantareira, historiador, antropólogo, homem das humanidades, cujo incansável trabalho de pesquisador incentivou e trouxe os elementos de verdade que ilustram esta pequena ficção.” Intitulado “O outro Custódio”, o livro contava de forma romanceada, misturando elementos ficcionais e fatos históricos, a vida de um certo Negro Custódio, líder das primeiras sublevações de negros no sul país contra a escravidão. Na página 67, o seguinte trecho: “E assim, exatamente às 2 horas e 15 minutos do dia 7 de junho de 1851, horário estranho para aquele tipo de execução, pela mão do próprio intendente, Juvenal de Menezes, era derrubado no buraco do cadafalso aquele que anos mais tarde seria reconhecido como o grande líder das primeiras revoltas e movimentos abolicionistas no sul do país. Custódio perdia a vida, o povo ganhava um herói.”

Saravá!

Amada Júlia, somente hoje me trouxeram o que pedi, papel e caneta. Na verdade, uma folha de papel e um lápis, grosso e mal apontado. Disse-me o carcereiro, perdão, ato falho, o enfermeiro, que não me dão caneta porque têm medo que eu a use como uma arma. Já me imagino rendendo os trezentos gorilas que vigiam este inferno com a minha poderosa caneta de mão. Ora, por favor... Mal sabem eles que como arma, um lápis ou uma caneta têm o mesmo efeito. Efeito muito mais nocivo para esses ..., aliás, do que qualquer arma de fogo. Os dias passam por aqui como deveriam passar os dias numa prisão: lentos e chatos. Os projetos, ah, esses sim, vêm aos montes. E todos na cabeça. Mesmo que eles me arranquem ela do pescoço, eles ainda vão estar lá. Falaremos muito deles ainda. Nós e o mundo. A me enlouquecer somente a música que o carcereiro (de novo?) do domingo (ou será da terça?) bota na vitrola. Já está escrito, ou melhor, pensado, o estudo sobre a relação entre música ruim e volume alto. Será que sempre foi assim? Falando de música, já são 13 peças novas, uma bonita mais do que a outra. Pelo menos é isso que você dirá, tenho certeza, mesmo que não sejam... Ah, Cecília, que saudade das nossas tardes ao piano! Você sempre me trazia um novo acorde, que confundia a minha cabeça. Harmonia nunca foi o meu forte, né? Mas as melodias... Lembra daquela vez em que eu disse que aquela progressão não se encaixava naquele trecho daquela valsa que aquela mulher daquela casa... Nossa, quantos aquelismos! Desculpa, não posso deixar de rir. E o nosso vizinho gordo, que sempre aparecia na janela com os bigodes engraxados? Quanta falta me fazem aqueles dias, Marta! Mas vamos falar de coisas boas. Você já fez a estreia daquele concerto? Estavam todos ansiosos desde que você disse que andava a compor uma nova peça. Ah, essa gente que não sabe esperar. Quanto tempo eles pensam que leva para fazer uma música? Tereza, não me diga que já tem outras esperando ganhar o mundo? Que coisa! Como você consegue compor tanto? O meu livro já está todo pronto. Revisei sete vezes e em nenhuma delas troquei uma vírgula sequer. Minha doce Doulce, você sabe que eu sempre gostei de escrever. Homens passam, letras ficam, não é assim a frase que eles consideram a mais bonita que da minha pena já saiu? Tolinhos...Agora diga, vamos lá, não me esconda nada, você continua a usar aqueles rapazes robustos para pintar seus quadrinhos, meu amor? As más línguas hão de falar que eu sou um pobre homem traído. “Sabe a Joana, pois quando o marido sai ela vai pro ateliê e só sai de lá bem de noitinha...” Ora, o que é o sexo, Madeleine, se não se pode usá-lo com quem e quando se quiser? Ainda vão inventar uma palavra que explique tudo isso, ah, vão... Quem sabe eu mesmo. Nada! estou farto de tantas invenções. Já falei dos projetos? Estão todos aqui, nesta cabecinha lustrosa que você adora afagar, Elisabeth. Acabei de lembrar que inventei uma nova figura para aquele nosso minueto. Claro que vão dizer que não dá para dançar assim. Logo eles que não sabem nem trançar os pés. Humpf...Mas, Isabel, você dançará comigo, né? Enquanto esse dia não chega, sigo aqui imaginando novas artimanhas pra pegar aqueles abostados nos seus joguinhos miseráveis. Ninguém mais sai às ruas? Não se joga mais bola nas praças?Argh!! Que tédio!!! Luiza, soube que você tem saído sem sombrinha. Ai, ai, ai, menina, não vá pegar uma insolação. Se bem que a sua pele bem queimadinha deve ficar tão... Desculpa, querida, não quis ser ousado. Não fique ruborizada. Estou vendo você, minha santinha, toda envergonhada. Santinha lhe fica bem, não? Bárbara é um nome lindo. A propósito, Amanda, estive pensando naqueles lenços com as nossas iniciais trançadas: R e R, que lindo, não acha? Uma singela gota de Chanel nº 2 e tudo se resolve. (Ou seria outro número?) Ah, os ventos do norte... Eles movem moinhos, sim, Jacquelyn, não se iluda. Por falar nisso, sabe aquele lenço encarnado? Ainda está lá? Pois deixe bem à vista, que quando chegar vou usá-lo antes de qualquer coisa. Você fica tão linda nele, Bruna... Só não pode mostrar suas anáguas, que aquelas que você bem sabe quem são vão falar coisas. Não perdem por esperar, deixa estar! Como tem sido as noites em mim, Alexsia? Não deveria perguntar esse tipo de coisa, eu sei, mas tem conseguido... bem... você sabe... E aí? Não precisa responder, eu sei como são essas coisas de toilet, enfim. O que anda se tomando pra dor de cabeça, cafiaspirina? Ah, Leila, já disse que isso não é bom, mas você que sabe, quem manda nessa sua cabecinha que eu adoro afagar é... Os cadernos estão cada vez mais vagabundos, né? Esta caneta não escreve direito. Malditos alemães! Ando com tanta saudade de pisar as uvas. Clara, me diga que ainda há uvas, por favor! Sabe-se lá, nesses tempos loucos, até vinho devem estar fazendo de outras coisas, aff...Tem uma parede aqui que eu adoraria enfeitar com uma daquelas tapeçarias, sabe, Ana? Você poderia colocar uma de caçadas na sua próxima remessa. Mas me deixe os bichos vivos, bem sabe você, Caroline, que nas minhas caças não se mata ninguém, e os animais sempre são alguém, como não? Enquanto te escrevo, Jasmina, os projetos vêm a mil, e nem pedem mais licença pra se instalar. Que bom, assim me poupa trabalho de procurar lugar. Ainda vamos falar muito deles. Nós e os outros todos. Inclusive aquelazinha que não vou dizer o nome. Não não se faça de desentendida, Eliane, poupe o nosso tempo! Me economize, hahahaha! Ainda se joga bolita pela rua? Não interessa, o que eu preciso é que tu me contes do teatro. O que anda acontecendo por lá, Leonora? Aquele velho sujo continua fazendo aquelas tolices? Ai, dio santo, como pode alguém cair nessa esparrela? Só você mesmo pra me alegrar desse jeito, Clotilde, sua fofíssima! Não, não quis ofender, perdão, é que acho tão lindas suas bochechas vermelhas. Agora me diga, preciso perguntar... perdão..., não queria lhe incomodar com essas frivolidades, sabes bem que não me preocupo com essas coisas mundanas, as relações pequeno-burguesas que tanto nos falam, enfim, mas... sem delongas... tu me amas, Cláudia?

Rio, I de ….

Com amor, e sons, e tons, do sempre seu …

- Ah, esses poetas...

Dobrou cuidadosamente os papéis e depositou no lugar em que os encontrou, talvez não na mesma página, que isto sim seria frivolidade, mas dentro do livro estavam e lá permaneceriam até que algum leitor os encontrasse novamente. “Precisamos cuidar da memória nacional.” - pensou, antes do próximo gole de chope.

A vida dos outros

Andressa ficou realmente incomodada com aquilo. Em todos esses anos em que se hospedava lá, nunca aconteceu nada parecido. Por consideração aos antigos funcionários, e apenas por isso, aceitou o pedido do novo gerente para que não registrasse formalmente a reclamação, mas deixou claro que as desculpas não aceitaria. Ficou pensando no constrangimento: ter de explicar duas vezes no salão do café que ainda não havia subido e que não sabia porque o seu apartamento já havia sido marcado na lista. Nos dois dias, a mesma coisa. Era muita incompetência, não podia penar em outra coisa. No terceiro e último dia resolveu pedir o serviço no apartamento, mas não escapou de ter de dizer, ao telefone, que ainda não tinha tomado seu café naquela manhã. Pensou até em suspender, mas se já estava irritada, sem o café da manhã o dia seria terrível. A primeira coisa que faria ao voltar: pedir à secretaria que reservasse outro hotel já para a próxima estada em São Paulo. Não queria nem pensar em passar por tudo aquilo de novo.

Ronaldo estranhou que o dono da banca lhe perguntasse se havia algum problema com o outro jornal. Ainda não tinha passado por ali naquela manhã. Diante da insistência do homem, dizendo que ele já havia levado o jornal, resolveu deixar por isso mesmo. Mas passaria mais tarde para conversar com a filha do jornaleiro e sugerir que marcasse uma consulta para o pai no seu consultório. Casos de senilidade precoce não eram mais tão raros e o diagnóstico feito em tempo, com o tratamento adequado, poderia evitar mutos problemas.

Eram vizinhos de bairro, mas nunca haviam se falado antes de Andressa telefonar para pedir desculpas pelo ocorrido na última terça-feira. Tivera de deixar a clínica às pressas, antes mesmo do fim da consulta, a fim de resolver um problema no escritório. Não tinha conseguido ligar antes, pois naquela mesma noite viajou a São Paulo. Ronaldo ficou sem entender nada, mas por cortesia, e alguma curiosidade, aceitou o convite para um café na tarde seguinte. Na terça-feira não tinha atendido no consultório. Talvez no encontro a paciente (?) pudesse ver que se tratava de um equívoco.

O senhor Burd era um dos seus pacientes mais antigos e o tratava como um filho, inclusive sempre o chamava assim. Carinho que era recíproco. Ronaldo perguntou porque ele tinha deixado passar tanto tempo desde a última consulta.

- Mas, meu filho, estive aqui na semana passada para a revisão de praxe. Foi quando você me falou em trocar os remédios. Justamente por isso estou aqui hoje de novo, pois parece que esses comprimidos novos não estão fazendo muito efeito.

Mas que coisa estranha!” - pensou Ronaldo. No mesmo dia o dono da banca se confunde, o paciente antigo se confunde, uma mulher estranha se confunde. E ele no meio disso tudo.

Andressa chamou a secretária e perguntou pelos documentos que havia pedido ainda antes da viagem a São Paulo. A equipe do escritório era muito competente, por isso achou que deveria ter acontecido algum erro de comunicação.

- Desculpe, Dra. Andressa, mas numa de suas ligações, anteontem, a senhora disse que havia conseguido resolver tudo e que eu poderia arquivar os papéis.

Não lembrava, mas resolveu deixar para o outro dia, estava quase na hora em que havia marcado o encontro no Café.

Andressa aproximou-se da mesa e perguntou se poderia sentar-se. Ronaldo, que era um sujeito muito educado, disse que sim, mas que estava aguardando uma pessoa.

- Pois esta pessoa não estaria agora à sua frente, doutor? - disse, com bom humor.

- Andressa?

- Quem mais? Espero que a mudança tenha sido para melhor…

- Perdão?

- Sim, devo ter mudado bastante em uma semana para você não me reconhecer.

- Puxa, mil desculpas, não quis ser indelicado. É que…

- Não se preocupe – disse, interrompendo o médico com um sorriso no rosto -, não deve ser nada fácil lembrar a fisionomia de todos os pacientes. Se bem que pela maneira como eu tive de deixar a clínica, você tem mesmo toda a razão de não querer muita conversa...

Imediatamente Ronaldo lembrou dos episódios com o jornaleiro, depois com o senhor Burd, e como agora também não soubesse o que de fato estava acontecendo, resolveu improvisar.

- De maneira nenhuma! De fato esses dias têm sido muito atribulados, o que não justifica tamanha grosseria de minha parte. Permita que eu pague o café para tentar me redimir.

- Nada, querido, essas coisas acontecem, também não tenho tido dias fáceis. Mas tudo há de melhorar.

- Deus queira! - Disse isso como mero ato reflexo, porque sequer era religioso.

Antes de sair, Ronaldo deixou um cartão e perguntou se seria muita ousadia pedir-lhe o telefone para que pudessem conversar em outro momento.

- Indelicadeza teria sido não pedir meu número, doutor. Poderia entender que além de ter se esquecido antes, desejaria esquecer-me agora definitivamente...

Ronaldo não teve como deixar de admirar o peculiar senso de humor e a fina ironia da “nova” vizinha.

- Por favor, me chame apenas de Ronaldo.

- Claro, desculpa, é a força do hábito.

Despediram-se. Para Andressa nada de muito anormal, mas Ronaldo ficou extremamente desconfortável com aquele encontro. Não pela companhia, que era agradabilíssima, mas pelas circunstâncias, pelas coisas que ela lhe disse. Não lembrava de ter acontecido nada daquilo, mas a precisão de detalhes mostrava que ela não estava mentindo - não teria motivos para isso - ou mesmo que estivesse equivocada. Realmente estivera no consultório, talvez tenha apenas errado a data, mas como ele poderia ter apagado isso da memória? Quanto mais sendo ela uma mulher tão interessante e em uma situação tão inusitada. “Estranho...”

Quando chegou no escritório, sobre a mesa da secretária viu os contratos que tinha pedido no dia anterior. Ficou surpresa ao vê-los assinados.

- Quem assinou esses documentos? - disse, sem disfarçar uma profunda irritação.

A secretária ficou perplexa com a pergunta e achou que se tratava de uma brincadeira, ainda que a chefa não fosse dessas coisas.

- Doutora Andressa, desculpa lhe perguntar, mas a senhora não lembra de ter passado aqui ontem ao final da tarde e ter assinado os documentos?

- Ora, não diga bobagens! Dei uma rápida passada por aqui e fui resolver outros problemas. O encontro no café... - disse essa última frase como um pensamento em voz alta.

- Como disse, doutora?

- Nada, nada... Apenas me explique por quem os documentos foram assinados, quando e quem autorizou, por favor.

- Mas, doutora, pode verificar os contratos, estão todos com a sua assinatura, e hoje cedo eu os encaminhei ao tabelionato para o reconhecimento, conforme a senhora deixou determinado.

Nesse instante, Andressa, que folheava os papéis com alguma falta de atenção, a ponto de não ter percebido antes que as assinaturas eram de fato as suas, observou que o que a secretária dizia era verdade. Sentiu um arrepio por todo o corpo, pois nunca tinha acontecido de esquecer algo tão importante. Pediu apenas que ela lhe servisse um copo d'água e que não a interrompesse por alguns instantes. Precisava refletir sobre tudo aquilo. Acendeu um incenso, hábito que tinha desenvolvido com bons resultados sempre que precisava resolver alguma situação delicada, e deixou a mente vagar por alguns minutos.

Ronaldo ligou para o consultório e pediu que a secretária desmarcasse as consultas daquela tarde. Perguntado pela razão, limitou-se a dizer que precisava resolver alguns problemas particulares urgentes. Sabia dos transtornos que isso lhe causaria, pois a agenda estava sempre cheia e teria trabalho para reorganizar os pacientes, mas não estava com cabeça para atender ninguém, precisava refletir.

Encontraram-se depois de alguns dias na livraria do shopping. Ambos procuravam algo que pudesse trazer alguma luz àqueles estranhos fatos. Os modernos estudos da neurociência, que não lhe deviam ter escapado, certamente esclareceriam as coisas, era o que pensava o médico. Ela passava os olhos pelas prateleiras destinadas aos livros de espiritualidade. Por ali encontraria as respostas, tinha certeza. Tomaram um café na própria livraria mesmo, mas evitaram qualquer comentário. Embora um tivesse participação nos acontecimentos inexplicáveis relacionados ao outro, não tinham ainda intimidade suficiente que lhes permitisse avançar nessas conversas.

Ronaldo não estava muito acostumado a atender rapazes mais jovens, que dificilmente procuram um neurologista, salvo por alguma situação específica, o que não parecia ser o caso. Como fazia sempre, perguntou o que o tinha levado ao consultório:

-AN-DRES-SA! - respondeu o rapaz, como se tivesse realizando um exercício de partição silábica no colégio. E repetiu com ainda mais veemência:

- AN-DRES-SA! Capice, doutor?

Sem ter ligado os fatos na hora, Ronaldo perguntou:

- Perdão, cavalheiro, não compreendi.

Ao levantar os olhos para o paciente, imediatamente as ideias se recompuseram e o ambiente ficou tenso.

- Tenho certeza que compreendeu. E muito bem, doutor! Quanto o senhor está pagando por aquela puta??

- Meu amigo, não sei do que o senhor está falando. Conheço realmente uma Andressa, aliás, conheci há poucos dias, mas a sua relação com ela, se é que se trata da mesma pessoa, não me interessa. E se estamos falando da mesma senhora, gostaria que tivesse mais respeito, ou melhor, seja de quem for que o senhor esteja falando, respeito sempre é bem-vindo.

Disse tudo isso fingindo uma calma que já não tinha, e acionou o botão da segurança, discretamente instalado sobre a mesa. O sujeito era observador e percebeu esse detalhe. Antes que a equipe chegasse, deixou o consultório, batendo a porta, para espanto de todos os que estavam na sala de espera. Principalmente pelo que disse aos berros:

- ISSO NÃO VAI FICAR ASSIM, DOUTORZINHO FILHO DA PUTA!!! VOU ATÉ O FIM DO MUNDO ATRÁS DE VOCÊS!!!! VÃO SE ARREPENDER DO DIA EM QUE ACHARAM QUE PODIAM ME SACANEAR!

A secretária entrou na sala, mas Ronaldo não deixou nem que perguntasse se precisava de alguma coisa. Apenas orientou que ela pedisse ao próximo paciente a gentileza de aguardar alguns minutos, enquanto ele se refazia do susto daquele mal-entendido, que tudo não teria passado disso, sem dúvida. Por mais habilidade que tivesse em resolver situações embaraçosas, naquele momento foi difícil explicar aos pacientes o que estava acontecendo. Resolveu não aprofundar o assunto, mesmo porque não sabia de nada, e apenas seguiu as orientações do chefe.

Ronaldo ligou para Andressa, mas o número caiu direto na caixa de mensagens. Na quarta vez consecutiva resolveu deixar o recado, disfarçando o nervosismo no tom de voz (provavelmente de forma inútil), para que ela retornasse a ligação assim que possível.

Tinha sido um dia cheio, então Andressa só conseguiu ouvir o recado no final da tarde.

- Ronaldo, querido, perdão, somente agora consegui me desvencilhar do trabalho. A nossa correria diária, você conhece bem. Aconteceu alguma coisa errada? Não é comum você me ligar assim. Aliás, não lembro de ter recebido ligação sua antes.

- Quando podemos nos encontrar? O assunto é urgente.

- Nossa, falando assim você me assusta! Pode ser hoje mesmo. Que tal você me apanhar no mesmo lugar?

- Que lugar?

- O lugar onde nos encontramos na nossa última... saída, esqueceu?

Não lembrava daquelas intimidades, mas entendeu que não era hora de questionar esse tipo de coisa. Como não sabia que lugar era aquele, pensou rapidamente em um local conhecido dos dois.

- Acho melhor nos encontrarmos no shopping, em frente à livraria – foi o primeiro lugar familiar que lhe veio à mente -, dali decidimos o que fazer.

- Ok, me dê apenas um tempo para passar em casa e tomar um banho.

- Às 19, então?

- Perfeito!

- Até logo!

- Beijo, querido!

Mais uma vez essa intimidade que não lembrava de ter concedido o deixou incomodado.

Ronaldo era de cumprir horários e pontualmente às 19 horas estava em frente à livraria. Os poucos minutos de atraso de Andressa pareceram horas.

- Oi, querido! Nossa, como você está pálido. Começo a ficar preocupada. Quem sabe você consulta seu médico?

- Talvez não haja motivo para preocupação, espero, mas precisamos conversar em algum lugar mais reservado. E, por favor, por hoje eu dispenso suas piadinhas…

- Hummm… Que seriedade! Por que não me disse que iríamos sair? Eu teria me preparado melhor. Sem piadas, mas com alguma roupa mais apropriada…

- Do que você está falando?

Ao perceber que a coisa era um pouco mais séria, Andressa adotou outra postura.

- Desculpa, querido, estou vendo que você não está para brincadeiras hoje realmente. Não quero lhe deixar constrangido. Pelo horário você não deve ter jantado ainda. Conheço um restaurante bem tranquilo não muito longe daqui. Deixamos o seu carro no estacionamento e vamos no meu. Pode ser?

- Prefiro que cada um vá no seu carro. Ou melhor, você vai de carro e eu vou de táxi, porque preciso beber alguma coisa e não quero dirigir depois disso.

- Nossa, como você está tenso! Se é assim, também vou precisar de uns drinks. Vamos os dois de táxi.

- Como quiser, mas chamamos dois carros.

O que houve com este homem?”, pensou, mas achou melhor deixar para perguntar isso durante o jantar.

O restaurante de fato era o melhor lugar possível para aquele encontro. Tão discreto que Ronaldo nunca notou a sua existência, embora fosse seu caminho quase diário.

- Pois bem, meu nobre doutor, vamos fazer os pedidos primeiro ou quer entrar logo no assunto que nos trouxe aqui?

- Antes de mais nada, desculpe-me a falta de delicadeza.

E antes que continuasse, Andressa o interrompeu:

- Ah, bom, agora sim está mais próximo do Ronaldo que eu conheço.

- É que andaram acontecendo coisas nos últimos tempos que não sei como explicar. E particularmente hoje um fato muito estranho me ocorreu no consultório.

- Vejo que o seu consultório é palco de acontecimentos esquisitos mesmo... - disse ela, lembrando do episódio da consulta que ele dizia não recordar.

- Pois então, nunca foi assim, mas hoje um homem, na verdade um jovem, que imaginei ser apenas mais um paciente, embora raramente atenda homens que não estejam já na meia idade, teve uma atitude muito estranha durante aquilo que eu imaginei que fosse a consulta.

- Já entendi que não era uma consulta, pelo que você está dizendo, mas não consegui entender ainda o que o tal rapaz foi fazer lá, já que é um consultório médico, né?!

Decidido a entrar logo no assunto, Ronaldo foi direto:

- Ele me disse que tinha ido lá por sua causa.

- Hein??? Por minha causa? Como assim?

- Pois foi exatamente o que eu pensei no momento.

- Me conta melhor isso, que agora fiquei curiosa.

Andressa ainda não tinha feito as relações devidas, então não podia imaginar do que se tratava.

- É o que eu estou tentando fazer.

Foram interrompidos pelo garçom, que estava trazendo as bebidas.

- Continua, por favor.

- Como faço com todos os pacientes que atendo pela primeira vez, perguntei o motivo da consulta, e neste caso havia um interesse maior, por conta da pouca idade do rapaz, como falei. E sabe o que ele me deu como motivo para estar ali?

- Não faço a menor ideia, dessas coisas da saúde na medicina tradicional meu conhecimento é parco.

- Andressa.

Uma breve pausa teve lugar, porque ela achou apenas que ele tivesse pronunciado o seu nome ao acaso.

- Não entendeu?

- Entender o quê?

- O que eu disse que ele me deu como razão da consulta.

- Você não disse nada.

- Pois a razão daquele rapaz estar em frente à minha mesa, no meu local de trabalho era esta: AN-DRES-SA. - e disse isso tentando reconstituir a maneira como tinha ouvido no consultório.

- Espera aí, isso é algum tipo de brincadeira, você quer me fazer alguma surpresa, quer me propor algo diferente, o que está acontecendo?

- Pois esta é a resposta que eu espero de você. O que está acontecendo? - disse também com certa irritação.

- Não estou entendendo nada. A única coisa que posso imaginar neste momento não faz o menor sentido.

- Não quero repetir o que ele disse em seguida, mas posso lhe garantir que foram coisas impublicáveis.

- Sobre mim?

- Sim.

- Então você tem que falar, não acha?

- Tem certeza que quer saber mesmo?

Nesta altura da conversa ela já começava a desconfiar de algo, mas não quis antecipar as coisas.

- Claro, já não sou mais uma adolescente que pode se assustar com algo que se diga sobre mim, então vamos lá.

- Bem, ele disse que você é...

Vendo o constrangimento do amigo, completou a frase:

- Uma piranha?

- Quase.

- Certo! E o que mais?

- Disse que isso não vai ficar assim.

- Isso o quê?

- Esperava que você me dissesse...

Andressa, que agora achava já havia compreendido mais ou menos o que tinha acontecido, ficou bastante decepcionada com a postura de Ronaldo, pois lhe pareceu que por medo ele queria dar outro rumo à história, então resolveu encerrar a conversa.

- Olha, querido, você vai me desculpar, mas não escolheu uma boa hora para falar disso. Estou muito cansada, tive um dia difícil, aliás, uns dias difíceis, e amanhã viajo a trabalho. Vamos deixar esse papo para quando voltar, na semana que vem.

Ronaldo queria, na verdade se livrar daquilo tudo, de preferência nunca mais ter de encontrar aquela mulher. Achou que poderia ser uma boa chance. Encerrando o assunto por ali mesmo, talvez as coisas voltassem a ser como eram e a sua vida pacata fosse recuperada.

- Creio que você tem toda a razão. Vamos deixar isso de lado e tocar a vida em frente.

- Isso! Pode chamar um táxi pra mim? Não tive tempo de carregar o celular.

- Mas nem jantamos ainda. – disse sem nem saber o motivo, afinal queria mesmo sair dali o mais rápido possível.

- Desculpa, mas toda essa história me deixou sem fome. E sem ânimo. E amanhã preciso estar bem para enfrentar os meus tubarões paulistas de novo.

- Como queira, então.

Conforme esperava que acontecesse, nas semanas seguintes as coisas voltaram a correr com tranquilidade. A mesma rotina diária de pacientes, cirurgias menores realizadas com sucesso, uma intervenção maior remarcada, enfim, a vida normal de um médico na cidade grande. Não teve notícias de Andressa, o que o deixou bastante satisfeito. E mais ainda por não receber visitas indesejadas novamente.

- Doutor Ronaldo, desde ontem uma mulher tenta falar com o senhor ao telefone. Insistiu que eu lhe passasse o número do seu novo celular, pois disse que o que ela tinha não existe mais, mas não o fiz, conforme a sua determinação.

- E fez muito bem. Ou melhor, não o fez muito bem. - Até o senso de humor, que andava enfraquecido, Ronaldo conseguiu recuperar depois que parou de ter contato com Andressa.

- E a tal mulher não deixou um número para eu retornar ou outro recado qualquer?

- Não, apenas disse que entraria em contato novamente.

- Não seria uma das pacientes antigas querendo uma consulta?

- Por certo não, caso contrário teria pedido para marcar um horário.

- Claro, claro – disse Ronaldo, se dando conta da bobagem que havia falado -, vamos aguardar, então.

Ao chegar no consultório, Ronaldo viu que sua tranquilidade estava com os dias contados. Na recepção Andressa o aguardava. Ao cumprimentá-la perguntou se tinha marcado consulta. Nem sabe porque fez isso, mas foi a primeira coisa que lhe ocorreu dizer.

- Não marquei, mas se for necessário posso fazê-lo. Certamente para daqui a alguns meses...

Não queria agir com toda aquela formalidade, mas parece que isso se fazia necessário diante da frieza com que Ronaldo a recebera. E já ia se levantando para falar com a secretária quando foi interrompida:

- Não, claro que não, se puder aguardar alguns minutinhos já falo com você.

- Claro, aguardo sim. O tempo que for necessário, tirei o dia para isso hoje. E é melhor do que esperar abrir vaga na sua agenda…

Ronaldo observou que ela tinha o hábito de encerrar as frases sempre com alguma ironia, alguma tirada, e isso, se geralmente não lhe desagradava por completo, naquelas circunstâncias não descia bem.

- Ok.

Depois da saída do primeiro paciente, Ronaldo pediu, por telefone, para que a secretária pedisse licença ao próximo, pois precisava falar com Andressa. Orientou que dissesse que não demoraria.

-Oi!

- Oi!, mas…, você já disse isso hoje, não?!

- Não, você não me cumprimentou quando chegou. Apenas saiu perguntando se eu tinha agendado horário. Mas deixa pra lá, hoje sou eu que te trago alguns problemas. E também gostaria de retomar aquele assunto, se você não se importar.

- Na verdade me importo. Não queria mais falar naquilo. Mas, pensando bem, é importante que nós possamos resolver tudo e deixar as coisas claras daqui por diante. Só que acho que aqui não é o melhor lugar. Ou melhor, agora não há tempo, mas se você quiser voltar mais tarde, depois das consultas, poderemos conversar com tranquilidade.

- Para mim seria ótimo, porque deixei o carro no estacionamento aqui do lado e aproveito para fazer algumas coisas por aqui. Unhas, cabelo, coisas de mulher, você sabe... - falou daquele jeito para tentar quebrar o gelo e se reaproximar dele.

- Então está combinado. Deixa ver... são 2 e meia. Às 19 fica bom?

- Perfeito!

Pouco antes das 19, voltou ao consultório e já encontrou a sala de espera vazia. A secretária avisou que o último paciente tinha entrado há algum tempo, então não demoraria para que a consulta encerrasse.

-Obrigada, querida, não se preocupe que hoje estou com tempo, e distração é o que não falta por aqui... - referia-se às duas prateleiras cheias de bons livros que o médico disponibilizava aos pacientes em espera.

- Geralmente os consultórios médicos só nos oferecem revistas velhas.

- Ah, o Dr. Ronaldo é uma pessoa diferente, até com isso ele se preocupa.

- Deve ser bom trabalhar aqui, né?

E assim foram conversando até que o paciente deixou o consultório. Ronaldo pediu só um minutinho e dispensou a secretária, o que contentou Andressa, pois imaginava que teriam uma longa conversa e não queria que a moça ficasse presa lá por causa dela. Ademais, não sabia como poderia terminar aquele encontro…

- Tchau para a senhora!

- Tchau, querida, mas da próxima vez me chame só de Andressa, senhora me deixa ainda menos jovem do que pareço...

Estava um pouco ansiosa, por isso o curto espaço de tempo entre a saída da secretária e o convite de Ronaldo para entrar na sala lhe pareceu bem maior.

- Então, o que te traz aqui?

-Parece que a sala te obriga a fazer sempre a mesma pergunta…

- Oh, não, perdão, realmente é a força do hábito, mas confesso que não esperava a visita.

- É que tenho ligado nos últimos dias, mas é mais fácil falar com a Rainha da Inglaterra do que com o famoso Dr. Ronaldo.

- O famoso fica por sua conta, mas então é você que tem ligado? Por que não deixou um número ou se identificou?

- Minha intuição dizia que você não gostaria de falar comigo. Mudou o número do celular, a propósito?

- Ah, sim, faço isso de tempos em tempos.

- Não precisa dizer nada, não desejo explicações sobre a sua vida privada. Não essas, pelo menos.

- Bem, você disse que tinha um assunto novo e queria retomar aquela conversa do restaurante. Por onde começamos?

- Pelo que talvez seja mais fácil pra mim. Veja isto, por favor. - entregou-lhe uma fatura de cartão de crédito, na qual constava a cobrança de um valor bastante alto em nome da clínica.

- Sim, algo errado?

- Como assim? Você não está vendo as cobranças da fatura? Esta não é a sua clínica?

- Estou. Sim, é a minha clínica. Se o problema for com os valores, que de fato são um tanto quanto elevados, podemos resolver isso sem problemas. Confesso que nessas coisas de cobrança, valores, honorários, eu mexo pouco. Tenho uma equipe muito competente que cuida disso pra mim, mas pode ter ocorrido algum erro ou mesmo os valores podem ser revistos. Estamos aqui pra acertar as coisas, não se preocupe.

- Não estou entendendo! Ou melhor, você não está entendendo, parece.

-Desculpa, Andressa, mas exatamente o que você está estranhando? Já disse que os valores podem estar errados, mas não tenho como verificar isso agora. E imagino que a minha secretária ou alguém da equipe administrativa da clínica tenha tratado disso com você antes, não?

- Ronaldo, a única vez em que eu estive aqui nesta clínica como paciente foi justamente aquela que você não recorda, então não tenho a menor ideia do que seja esta cobrança. Não seria este o preço de uma consulta interrompida, não é? Ou você já está me antecipando a cobrança pelos danos morais?

- Olha, desta vez sou eu que vou perguntar se isso é algum tipo de brincadeira, de pegadinha. Há alguma câmera escondida por aqui? Estarei no Sílvio Santos no domingo? Pode me explicar melhor o que está acontecendo?

- Não tenho o que explicar além do que eu já disse, não fiz consultas, nem exames, nem cirurgias, não usei seus serviços profissionais, salvo daquela vez, então esta cobrança está errada. Você pode cobrar os “serviços prestados” diretamente, pago, não tem problema, mas não sabia que “naquela outra área” você também é profissional…

- Andressa, agora quem está ficando assutado sou eu. Essas coisas que você está falando não fazem o menor sentido. Antes de você viajar para o sul em férias...

Andressa interrompeu abruptamente a fala de Ronaldo

- Férias? Você disse férias? Como assim, férias?? Há dez anos que minhas férias são no meu escritório! E além disso, eu só fui ao sul até hoje a trabalho. O que está acontecendo, hein, você pode me explicar? Você chega, entra na minha vida daquele jeito esquisito, se fazendo de desentendido, vai literalmente comendo pelas beiradas, depois me come toda, me faz dispensar o meu antigo namoradinho, e de repente me chuta. E agora quer apresentar a conta?? Agora entendi aquela conversa toda de antes. Ninguém me chamou de puta, VOCÊ acha que eu sou puta, mas quem age como gigolô é você, VOCÊ!!!

Andressa estava agora descontrolada e Ronaldo, fazendo algum esforço para pensar como médico quase disse que poderia lhe pedir para tomar algum calmante, mas resolveu esperar, talvez ela não entendesse bem naquele momento e pudesse pensar que ele queria dopá-la.

- Do que você está falando, Andressa? Que conversa é essa de... te comer pelas beiradas, de te comer toda? Nunca te tratei como... isso aí que você falou. O que é isso?? E aquele sujeito que veio me ameaçar aqui nesta sala era, ou é seu namoradinho? Mas e o que eu tenho a ver com isso? Se você está armando todo esse circo para não pagar as consultas e os exames, não perca mais tempo – abriu a gaveta e puxou um talão de cheques -, apenas faça a conta aí de quanto te devo. Melhor que isso, deixa que eu somo. Só me prometa que vai sumir da minha vida! Para sempre!!!

Andressa, que já estava em prantos, saiu porta afora dizendo apenas que ia sair sim da vida dele, mas não sem pagar a conta. Ronaldo saiu atrás e a alcançou já no estacionamento onde ela havia deixado o carro, que a esta altura já estava vazio. O manobrista aguardava apenas que ela retirasse o carro para fechar.

- Acalme-se, você não tem condições de dirigir.

Naquele momento Ronaldo estava já um tanto arrependido de tê-la tratado com tanta brutalidade. Não era do seu feitio agir assim.

- Agora você quer me dizer o que eu tenho ou não condições de fazer?? Sai daqui, vai arrumar outra... puta pra satisfazer a tua loucura. VAI!

- Não vou deixar você sair assim, me desculpe.

- Amigo – disse, dirigindo-se ao garagista – é possível deixar este carro aqui esta noite? Amanhã cedo ela vem buscá-lo.

- Não posso fazer isso, não, senhor, a garagem fecha e nenhum carro pode ficar aqui.

- Eu pago! Quanto você quer? Prometo que amanhã logo que abrir eu mesmo venho retirar o carro, se ela não puder. Ninguém vai saber de nada.

- Dá não, senhor, tem câmera.

- 500 reais não servem para abrir uma exceção? E já abriu a carteira, pegando o dinheiro para animar o rapaz.

Andressa não acompanhava essa negociação, porque estava sentada em um canto próximo à parede do banheiro e tudo o que fazia era chorar.

- Olha – disse o funcionário do estacionamento –, realmente a moça não tem condição de dirigir, é até perigoso, né? E o senhor não pode dirigir dois carros, né? Deve ter o seu. Vou quebrar esse galho, mas não é pelo dinheiro, não, o senhor sabe que…

- Tudo bem, tudo bem, amigo, pegue o dinheiro mesmo assim, eu faço questão. Que horas abre a garagem amanhã?

- 5 e meia.

- Ok, 5 e 25 eu vou estar aqui.

- O senhor vai, mas eu não, então fale com o meu colega, o Branquinho. Mas ele vai querer alguma coisinha quando souber que o carro ficou aqui de noite toda…

- Branquinho, né? Eu me acerto com ele amanhã. Muito obrigado pela sua compreensão. Deus vai lhe recompensar.

- Andressa, venha, por favor, vamos sair daqui e conversar com calma. Tenho certeza que com tranquilidade tudo vai ser explicado.

- Você quer me levar pro mesmo motel?? Não quero!!! Não vou!!!!

- Por Deus, mulher, para com isso, vamos conversar, não existem essas coisas que você fala. Há de ter uma explicação plausível pra tudo isso. Vamos, vem.

Andressa já não tinha forças para discutir e se deixou levar. Foram para o apartamento de Ronaldo. Antes, porém, ele fez uma ligação, parecia uma discussão, do que ela conseguiu compreender, sem muito interesse, que estava desmarcando um compromisso.

- Tome este remedinho, vai lhe fazer bem – disse já no apartamento.

- Ah, vai me dar um “remedinho” agora? Não seria um “boa noite cinderela”, não, né? Não, você já me comeu. E os meus rins você não vai querer tirar. Será, que não? Deixa ver se tem uma banheira cheia de gelo por aqui…

- Para com isso, você está perturbada, é só um calmante, dose baixa, apenas para que a gente possa conversar.

- Talvez eu esteja precisando mesmo de um calmante. Mas como eu vou saber que não vou apagar e deixar você livre pra fazer o que quiser comigo? Ninguém sabe que eu estou aqui, o meu carro está numa garagem não muito perto…

- Puxa, sua imaginação está fértil, hein?! Vamos fazer assim: eu te dou uma caixa fechada do remédio, você abre, lê a bula, se certifica que não vai desmaiar e só depois toma. É que eu acho que seria bom. E se você dormir, não tem problema, não vou nem chegar perto, e amanhã a gente conversa. Não parece uma boa proposta?

- Tá, vai lá, me dá logo esse remédio.

Andressa adormeceu de fato e, como prometido, Ronaldo não encostou nela sequer para ajeitar melhor o seu corpo no sofá, deixou que ficasse daquele jeito mesmo. Algumas horas depois, ao acordar, meio atordoada, tentou recuperar mentalmente tudo o que tinha acontecido até ali.

- Oi! - disse Ronaldo - Podemos conversar agora?

- Oi! Sim, diria que devemos.

- Então deixe que eu fale primeiro algumas coisas. E, por favor espere que eu termine para começar a responder, ok?

- Ok, o senhor é que manda.

Ronaldo fez um apanhado de tudo o que aconteceu desde que se conheceram, ao que Andressa ouviu atentamente, controlando o desejo de fazer intervenções, porque entendeu que assim seria melhor para organizar as informações na cabeça. Terminando este relato, pediu que ela falasse sobre aquelas coisas, para ele estranhas, de sexo, motel etc. Antes que começasse disse que ia ter com ela a mesma atitude, ouvir tudo e somente depois que ela terminasse ou lhe passasse a palavra falaria.

- Vamos lá, então. Desde que nos conhecemos, daquela maneira estranha, não pude deixar de me sentir atraída pelo seu jeito. Primeiro achei que fosse algo superficial ou mesmo aquela forma de atração que acontece entre pessoas inteligentes e de boa conversa, mas fui percebendo que não era apenas isso, e tive certeza que você me despertou algum tipo de interesse como homem quando fui a São Paulo e fiquei alguns dias sem te ver. Nessa época eu andava saindo com um rapaz, alguns anos mais jovem…

- Aquele que foi ao meu consultório, por certo.

- Sim, ele mesmo, mas você acabou de me interromper.

- Perdão!

- De novo.

Depois de um curto silêncio, riram da situação e ficaram ambos contentes pelo distensionamento do ambiente.

- Pois então prossiga, vou fazer voto de silêncio.

- Ok. Como eu dizia, naquele tempo estava saindo com um rapaz mais jovem, que você teve a oportunidade de conhecer, em circunstâncias bem ruins, mas, enfim… Ele não é má pessoa. Era uma aventura apenas, pois desde a minha separação tinha decidido não me envolver mais com homem nenhum por um bom tempo. Mas não sou de ferro… Quando percebi que estava começando a me interessar por você de um jeito diferente, chamei o meu… namoradinho, vamos tratá-lo assim, e disse que estava tudo acabado entre nós. Só que ele estava acostumado com a vida boa que eu estava lhe proporcionando, se é que me entende. E eu não percebi isso, na hora não percebi nem que ele tinha ficado tão insatisfeito. Imaginei que, sendo um cara bonito, de bom papo, jovem, logo arrumaria outra mulher, se é que já não tinha, e me esqueceria. Só depois que você me contou da visita dele é que fui descobrir que ele andava me seguindo. E certamente foi aí que nos viu entrar no motel.

Ronaldo precisou fazer grande esforço para cumprir a promessa de não interromper o relato.

- Mas eu juro que depois disso nunca mais o vi e pelo jeito ele também não te procurou mais, não é verdade?

Depois de um breve silêncio, Ronaldo perguntou se podia falar.

- Sim, claro – respondeu Andressa -, agora que as informações foram atualizadas de ambos os lados, vamos abrir uma conversa normal, que tal?

- Ótimo! Mas há uma informação importantíssima que você ainda não sabe.

- Ora, vamos lá, adoro novidades.

- Sou gay.

Aquelas palavras chegaram aos ouvidos de Andressa, mas não ao cérebro, não foram processadas de forma racional.

- Desculpa, por um instante entendi mal o que você falou. Imagina que me pareceu ouvir você dizer que é gay.

- Não, você não ouviu mal não, é isso mesmo, eu sou gay, sempre fui, tenho namorado e vamos nos casar em breve.

- Mas…

- Entende agora porque é um absurdo você imaginar que as coisas aconteceram do jeito que você diz?

- Ronaldo, desculpa, mas se você é gay, eu quero ser homem, porque o que nós fizemos naquela noite foi uma loucura. Nunca havia transado com nenhum homem daquele jeito.

- Para com isso… nunca transei com mulher… - também nunca havia confessado isso a ninguém, mas pareceu-lhe importante dizer para reforçar a afirmação.

- Só um momentinho, a coisa aqui está muito estranha, mas espera aí que eu vou te mostrar uma coisa. Vou te mostrar essa história de “nunca transei com mulher”. A não ser que tecnicamente você não me considere uma mulher...

Desde que fora abandonada pelo marido – a separação de que falara tinha se dado mais ou menos nesses termos – Andressa tinha decidido tirar o máximo proveito das suas aventuras sexuais. Embora o relacionamento com Ronaldo não fosse para ela uma aventura, na noite em que foram ao motel ela perguntou se ele se importaria que ela filmasse, com o que concordou plenamente. E que bom que o tinha feito, pois agora poderia provar o que dizia.

Um tanto contrariado, Ronaldo aceitou que ela lhe mostrasse aquela gravação, que ela fez questão de conectar na TV. Só assim mostraria que não era nada daquilo que ela dizia. Havia de fato um vídeo no celular e nele se reconhecia facilmente que a mulher era ela, além do que, a voz confirmava. Ocorre que em momento nenhum foi possível identificar o homem que estava com ela. Sempre que ficava em frente à câmera, a imagem estranhamente se desfocava ou ficava muito escura. Andressa ficou desconcertada e Ronaldo refez os pensamentos rapidamente para evitar pensar que tudo aquilo pudesse ser um golpe. Além de neurocirurgião, seus interesses na medicina incluíam a psiquiatria, mais especificamente a psicanálise, e o tempo todo em que estivera observando a fala de Andressa, também analisou suas reações e o contexto todo que cercava o seu relato. E concluiu que ela estava sendo sincera e que o que dizia era realmente o que pensava ter acontecido. Ao ver o estado em que ela tinha ficado por ver frustrada a sua “prova cabal”, tratou de acalmá-la.

- Olha, querida – era a primeira vez em que a tratava com aquela intimidade, que antes mesmo o incomodava no jeito dela -, embora não seja muito comum, há casos médicos que retratam mais ou menos a sua situação. Pessoas normais, com uma vida normal, trabalho, família, enfim, cidadãos comuns, em determinados momentos da vida, e por razões as mais diversas, passam por uma espécie de transformação e acabam sendo acometidos por um tipo de transtorno, que faz com que elas, de certa maneira, desenvolvam uma personalidade paralela. Lembra do célebre conto “O médico e o monstro?”

- Sim, adoro. Mas eu não sou uma monstra. E o médico aqui é você...

- Então, é mais ou menos isso.

- Querido, agradeço muito as suas palavras de conforto e admiro mesmo o seu conhecimento na área médica, de coração, mas sei que não sou louca.

- Não, de maneira nenhuma estou dizendo isso.

- Eu sei que não está dizendo isso, mas se acreditar no que você diz, EU vou concluir que estou louca.

- Nem pense nisso, acontece que…

- Só um pouquinho, desculpa te interromper, mas há um outro lado nessa história.

- Claro, vamos em frente, vamos descobrir o que está acontecendo.

- Você afirma que eu fiz um tratamento na sua clínica e inclusive estou sendo cobrada na fatura do cartão de crédito por isso.

- Pois essa é uma das manifestações da doenç…, quero dizer do distúrbio.

- Então você também está sofrendo do mesmo mal?

- Como assim?

- Como eu ia dizendo, você jura que eu fui sua paciente por um tempo e sabe até o tipo de tratamento que aplicou em mim, certo?

- Sim, aplicou não é a palavra adequada, mas que seja.

- Que seja, e este tratamento todo foi realizado na sua clínica, confere?

- Sim.

- E você lembra o período em que realizamos essas consultas e exames?

- Bem os dias certos não tenho como lhe dizer agora, mas isso é fácil de verificar. Foi nos dias que antecederam a sua viagem de férias.

- Que eu não realizei, diga-se de passagem, mas não vai ser preciso verificar nada. Já me encarreguei disso. Veja aqui. - Andressa abre uma pasta em que constam documentos, inclusive passagens aéreas, fatura de hotel, contratos assinados por ela com reconhecimento em cartório e até mesmo fotos, tudo comprovando que nos dias em que supostamente ela esteve sob seus cuidados médicos, estava em São Paulo, a trabalho.

Era a vez de Ronaldo ficar desconcertado.

- Mas... como?

Depois de um pequeno silêncio, em que ficou observando a cor do rosto de Ronaldo desaparecer, Andressa disse:

- Estou esperando a clássica frase: “Mas eu não estou louco!”

- Não, eu não estou louco!

- Claro que não! E por que eu estaria?

Depois de ficarem um longo tempo sem dizer uma única palavra, apenas olhando-se entre si e à volta, adormeceram. No outro dia, quando acordaram, estavam ainda atônitos pela conversa e pelas revelações da noite anterior. Em relação aos mistérios, que aumentavam na medida em que cada um trazia novas informações, estavam bastante assustados. Sabiam que algo muito estranho estava acontecendo.

Nenhum dos dois tinha condição de trabalhar naquele dia. Acordaram que ficariam no apartamento, como que fazendo uma imersão nas suas próprias lembranças, a fim de buscar subsídios para desvendar aqueles enigmas. Cancelaram os compromissos e ficaram conversando e vasculhando livros e internet à procura de algo que pudesse trazer alguma clareza àquilo tudo. Uma notícia de um jornal do Rio Grande do Sul fez com que ambos paralisassem e que praticamente o sangue lhes congelasse nas veias.

A matéria estampava a foto de um rapaz, aquele ex-namorado de Andressa, no momento em que era preso pela polícia de uma cidade turística na serra gaúcha. Com isso, segundo o noticiário, avançava a investigação acerca de um crime que estava tomando conta das páginas policiais nas últimas semanas. A morte de um casal de prováveis turistas, ocorrida alguns dias antes num dos parques da cidade, estava envolta numa áurea de mistério, de fazer inveja aos grandes romances policiais, como dissera um dos investigadores. As investigações sempre esbarravam em algum obstáculo, sendo o maior deles a absoluta impossibilidade de encontrar elementos que pudessem ajudar na identificação do casal.

Com a prisão do assassino, que confessou o crime, o nome das vítimas foi revelado: Andressa e Ronaldo.

Ao lerem os seus nomes na matéria, ambos sentiram como que se estivem desfalecendo e, instintivamente se abraçaram.

Foi um crime passional, prosseguia a matéria. Mas nada além disso foi possível descobrir a partir da prisão do assassino, porque antes de prestar depoimento, o jovem foi encontrado morto na carceiragem da polícia.

Andressa começou a chorar.

- Ronaldo, que loucura é essa? O que está acontecendo?

O médico, que também perdera completamente a serenidade, limitava-se a repetir, como fosse uma gravação:

- Meu Deus, meu Deus.

Conseguiram se recompor minimante e decidiram seguir em frente na leitura das notícias. Procuraram em outros jornais, mas nada diferente daquilo era noticiado. Descobriram, pelas descrições e o detalhamento do ocorrido, que o assunto era tratado como um dos casos mais sinistros ocorridos nos últimos anos. A cada vez que ouviam ou liam os seus nomes, um arrepio lhes percorria o corpo e tentavam, em vão, ver se acordavam daquilo que entediam agora como um grande pesadelo.

- Nenhum dos seus remédios tem efeito contrário? Calmantes e soníferos existem aos montes, eu sei, mas eu preciso de algo que me faça despertar. Isso só pode ser um terrível pesadelo.

- Gostaria muito de encontrar essa maravilhosa droga que nos fizesse sair deste inferno, mas tudo parece tão irreal e real ao mesmo tempo. Deus, o que estará acontecendo?

Pensaram em telefonar para alguém, pedir ajuda, mas estavam como que paralisados naquela sala e não conseguiam conter o desejo de saber mais daqueles fatos.

- Será que estamos mortos?

- Ora, não diga bobagens, Andressa, estamos aqui, bem vivos, e esse pesadelo há de ter um fim. Confia em mim.

- Como posso confiar em você se nem você confia?

Ao ouvir aquilo, Ronaldo percebeu que as tentativas de racionalização que propunha eram meros reflexos da sua atividade profissional e que naquele momento nada poderia ser explicado pelos tratados e teses da medicina.

- Vamos tentar de novo procurar alguma coisa no noticiário, Andressa. Venha aqui. A última coisa que leram foi:

O único elemento de que dispunha agora a polícia, visto que os corpos foram encontrados completamente desfigurados, o que impedia a identificação pelas impressões digitais ou pelas arcadas dentárias, e o provável autor dos bárbaros crimes estava morto, era um caderno com quase todas as folhas em branco, exceto a última, em que tinha sido inscrita à caneta, uma estranha mensagem: “A vida é um livro que ainda vai ser escrito. Sozinhos, andamos a esmo pelo mundo. Juntos, somos todos os outros.”

 *Publicado originalmente no blog oximarraoalucinogenocom.wordpress.com em 10/7/2018.


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